Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/317

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—­Pois as noites nem sempre são boas conselheiras, primo. É a hora favoravel á espionagem e ás... calumnias... Mas se sabe quem é, diga-o. Aquí em minha casa e no seio de minha familia, é sempre bem recebida a verdade. Não ha quem se tema d’ella.

E a morgadinha, dizendo isto, deixou-o desdenhosamente.

—­D’esta vez foi de uma severidade!!—­pensou Henrique.—­Cada vez me convenço maïs de que o idyllio existe e que vae já muito adeantado. Mas agora me lembro; e o meu duello com o Romeu, que nunca maïs vi? Não foi má tolice aquella minha! Preciso de procurar o homem para lhe dizer que o caso não vale a pena.

O despeito de Magdalena pelas palavras de Henrique fôra d’esta vez maïs intenso; quasi chegou a fazel-a desesperar da tenção que alimentava ainda, pois disse a Christina:

—­Ai, filha, que não sei se deva curar-te antes a ti do que a elle.

—­Que dizes?!

—­Nada. Ha doenças que fazem desesperar os medicos.

Era já noite. Os grupos, que ainda depois do auto se conservaram no pateo do Mosteiro, a brindarem a hospitalidade dos proprietarios, fôram dispersando pouco a pouco.

A banda de mestre Pertunhas saiu tambem com o fim de se preparar para as serenatas a casa do brazileiro e de varias personagens da terra, a quem era devido o cantar os Reis.

Angelo saíra da sala. Fôra para o fim da rúa de sobreiros, anterior ao pateo da quinta, esperar por Ermelinda para lhe dizer adeus.

Á medida que a noite se cerrava, parecia que se estendiam as sombras á fronte e ao coração do pobre rapaz.

Era a noite de Reis, a ultima dos dias de férias;