Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/325

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A procissão já tinha recolhido, quando chegaram á igreja a morgadinha e Christina, na companhia de Henrique e de Torquato. Havia no adro muita gente, e algumas barracas de doce e de café, como n’um arraial.

Pela porta principal da igreja engolfava-se a multidão, como em bôca de sorvedouro, subitamente aberto no leito de um rio, se precipitam as aguas impetuosas.

A fama, que pelas aldeias circumvizinhas apregoava o nome do missionario, attrahira immensa gente a escutar o sermão.

As senhoras do Mosteiro romperam a custo por entre a compacta massa popular, que se amontoava á porta da igreja, e conseguiram, por deferencia excepcional dos mesarios, entrar pela sacristía para a capella-mór.

Tinha um aspecto melancólico o interior da igreja n’aquella occasião. Pobre de si e pouco alumiada, maïs escura e lugubre parecia com a extraordinaria quantidade de gente que a enchia, na maior parte mulheres de roupas escuras e em que só alvejava o lenço branco que usavam á cabeça.

Apesar da quadra ir fria, como de janeiro que era, respirava-se alli dentro uma atmosphera quente, abafadiça e pouco salutar.

Um surdo murmurio formado por centenares de vozes rezando, a meio tom, orações e ladainhas, contrastava com as altas vozes de festa, que se escutavam lá fóra, e requintava a triste impressão que se recebia ao entrar. Alli um grupo de mulheres, de joelhos, escutavam a leitura de pias orações, que uma fazia em tom lutuoso, e respondiam em côro com Padre-Nossos e Ave-Marias; além viam-se outras com as faces rojadas no chão, batendo no peito e desentranhando exclamações, para commoverem a Divindade; outras em extase, como Santas Therezas, de braços abertos deante da imagem da Virgem; outras amortalhadas, em cumprimento de