Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/33

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nuvens; ó corações inoculados de poesia, que vos confrangeis e gottejaes lagrimas sinceras ao desmaiar do dia, ao desfolhar das arvores no outomno; poetas, que escutaes, com Victor Hugo, as vozes interiores, os cantos do crepusculo, e com elle adivinhaes os mysterios dos raios e das sombras, perdoae a involuntaria blasphemia da tia Dorothéa, que não contem o menor fermento de malicia; perdoae-lhe a dura expressão de que ella se serviu para caracterisar os vossos arroubamentos, as vossas tristezas vagas, os vossos devaneios, e crêde que, apesar da phrase, terieis n’ella uma alma mais afinada para sympathisar comvosco, do que tantas que por ahi fazem gala de vos comprehender melhor.

Henrique não podia porém digerir a expressão, de que se servira a tia, para diagnosticar o seu mal.

―Mania!―repetia elle―essa agora! Sempre é forte de mais. Mania, não, tia Dorothéa, lá isso não. Mania!

―Eu lhe digo―acudiu a criada.―Não vá sem resposta; que está quasi como o cunhado da Rosa do Bacello. A senhora não se lembra? Andou aquella alminha por ahi sempre triste, sempre a falar só, até que a final lá foi parar...

―Aonde?―perguntou Henrique, erguendo os olhos interrogadoramente para a criada.

―Lá foi parar a Rilhafolles―concluiu esta, espevitando a véla o mais naturalmente d’este mundo.

Henrique de Souzellas pulou com a sinceridade.

Nem acabou de sorver a ultima colhér de caldo de arroz, que lhe estava sabendo como nunca manjar lhe soubera.

―Então não comes mais?―perguntou a tia.

―Muito agradecido; eu o mais que tenho é somno.

―Pois sim, mas é preciso fazer por comer―insistiu ella.