Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/446

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da sua gratidão, beijou-lhe, commovido, a mão, que ella ia a retirar.

—­Que faz?—­disse Christina, córando e afastando-a.

—­Deixe-me beijar a mão piedosa que me prendeu á vida, á vida que só agora comecei a amar.

—­Ora vamos—­acudiu ella, com um meigo tom de reprehensão.

—­Como não quer que a adore, Christina, depois de se fazer anjo para me salvar? Não costuma rezar ao seu anjo da guarda?

—­Répare que eu não tenho azas de anjo.

—­Mas vôa maïs alto ao céo, quando desce assim a velar por um pobre doente como eu, que nenhuns títulos possue para lhe merecer essa dedicação, pobre menina! Que vida tem sido a sua ha tantos dias?

—­Nenhuns títulos! que diz?—­tornou Christina, com um sorriso adoravel.

—­Pois quaes?

—­Então não somos primos? disse ella, jovialmente.

E saiu do quarto, com aquelle andar ligeiro e fácil, que tanto enlevavaHenrique.

Estava já Henrique em convalescença, e o facultativo permittira-lhe alguns passeios pela quinta, mas ainda não a sua transferencia para Alvapenha. O logar favorito de Henrique n’estes passeios era á sombra de umas laranjeiras, que havia a pouca distancia de casa. Das janellas do quarto de D. Victoria descobria-se o logar. Quando as manhãs estavam serenas, Henrique ia para alli, com um livro que não fazia tenção de ler, e apoiando-se ao braço de Christina, que levava a costura para junto d’elle, para lhe fazer companhia.

D. Victoria seguia-os da janella com as suas recommendações.

—­Por ahi não, Christe!... Olha que é muito humido... Dá antes a volta pela nora... Assim...