Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/462

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N’este momento a Brizida, que fôra a uma sala immediata, voltou, dizendo em voz baixa:

—­Parece-me que abriram as portas da capella. Devem ser elles.

—­Então depressa—­disse Magdalena.—­Abra-nos o côro; mas antes apaguemos as luzes. Teve uma feliz lembrança em prévenir-se com essa lanterna de furta-fogo. Traga-a e siga-me; mas occulte a luz. Não faça barulho.

Apagadas as luzes da sala, Magdalena e Henrique entraram, por um corredor estreito, no côro da capella, d’onde a morgada costumava ouvir missa, emquanto mandava patentear ao povo o pavimento inferior.

Quando alli chegaram, com as precisas precauções para não fazer estalar as tábuas do soalho, havia já em baixo uma luz escassa, que desenhava longas no pavimento as sombras de duas pessoas, ainda occultas sob a varanda do côro.

Cêdo se adeantaram para o altar, e claramente se reconheceu serem Christina e Torquato.

Caminharam silenciosos até ao altar principal. Torquato subiu os très degraus, sobre que este ficava elevado e accendeu duas vélas de cera que, em ennegrecidos castiçaes de madeira dourada, ornavam uma imagem da Virgem da Soledade. Espalhou-se no recinto uma frouxa claridade, que não dissipou as sombras dos recantos, nem as que se condensavam no tecto.

Christina fez signal então a Torquato, para que se retirasse; e o velho, com os passos arrastados e tossindo, caminhou para a porta, que dentro em pouco se ouviu gemer sobre os gonzos e fechar-se com estrondo.

Tudo ficou depois em silencio.

Christina então ajoelhou deante d’aquella imagem, que era a de que a tradição popular contava milagres, e em profundo recolhimento ficou immovel a rezar a devoção promettida.