Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/475

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—­Então assim se trama uma conspiração ás caladas? Surprehender a gente com uma noticia de tal ordem! Ainda ha pouco demittido um ministerio de bonecas, e já um golpe d’estado d’esta natureza! Sim, senhora, é energia. Nunca o esperei. Ora dê cá um beijo, emquanto não tenho quem me peça explicações por os que lhe roubar.

E o conselheiro, com perfeita galanteria e affecto, beijou-a nas faces tingidas pelo pejo e pela alegría.

Depois, voltando-se para Henrique, accrescentou, sorrindo:

—­São os penultimos.

—­Os penultimos?—­disse D. Victoria, rindo.—­Ora essa! Então para quando ficam os ultimos?

—­Para quando a vir com a grinalda de noiva.

—­O que eu nunca esperei é que fôsse a nossa Christe que désse o exemplo á prima. Não tens vergonha, Lena—­disse D. Dorothéa para a morgadinha, em quem está reflexão fez nascer um gesto de contrariedade, que trouxe aos labios d’Angelo o primeiro sorriso d’aquella manhã.

O conselheiro e Henrique sorriram tambem.

—­Eu prometto casar-lhe a prima Magdalena, dentro em pouco, tia—­disseHenrique com intenção.

—­Não prometta. Esses negocios deixe-os ao meu cuidado. Bem sabe que sou teimosa e tenho a ingenuidade de acreditar que ainda ha coisas no mundo que se devem decidir pelo coração sómente.

—­E Deus me livre de o não consultar. Seria abjurar os meus proprios actos.

—­O sómente é que veio de maïs, filha—­disse o conselheiro.—­Attende-se ao coração, embora. Mas só ao coração? Isso era bom se vivessemos em um mundo de corações.

A chegada de novas personagens desviou a direcção da conversa e modificou a scena.

Eram influentes politicos, que obrigaram as senhoras a retirarem-se. Henrique ficou, a pedido do