Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/517

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a cumprir para com a sua generosidade. Hão de ensinal-o a desprezar-me, Angelo. O seu nobre instincto de creança recusar-se-ha a isso ao principio talvez: mas a razão do adolescente talvez venha a ser maïs dócil. Não podendo justificar-me, deixe-me ao menos jurar-lhe que parto com a consciencia tranquilla. Não é por mim que faço este protesto, é para lhe evitar, se fôr possivel, a dúvida no caracter dos homens. Para um coração, como eu lhe conheço, deve ser um martyrio. Os maïs que me condemnem; nem necessidade sinto já de me justificar. Parto com um desalentado como eu. O que vou procurar não sei. Tudo acceito com indifferença.—­Seu amigo, Augusto.

Fechando a carta, entregou-a ao Cancella, e ajustando outra vez a hora a que deviam encontrar-se, separaram-se.

O Cancella dirigiu-se para o Mosteiro e ainda a pensar nas palavras que ouviu a Augusto, e sem que atinasse com os motivos d’aquelle desalento.

Não pôde, porém, chegar tão depressa ao Mosteiro como esperava; distrahiu-o no caminho o seu compadre Zé P’reira.

A harmonia do par conjugal de que constituia a parte masculina o nosso Zé P’reira, estava cada vez maïs transtornada.

A beatice azedára o animo da sr.^a Catharina do Nascimento de S. João Baptista.

A saida precipitada do missionario, que não se sentiu seguro na terra depois da scena do cemiterio, e do desespero do Herodes, com quem elle imaginava a cada passo esbarrar, rodeára aquelle santo varão do prestigio dos martyres perseguidos; e as saudades por elle e devoção pela sua memoria augmentaram consideravelmente na aldeia.

Se mal corria ha muito a casa e o governo domestico da familia Zé P’reira, peor se tornou depois d’essa época.