Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/538

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os labios do que obrigal-a de novo a passar por elles.

—­Tens razão, menino. E que precisão tenho eu de saber uma coisa que não é verdadeira? Mas na verdade! Suspeitaram de Augusto! Ah! Henrique, está-me a parecer que tambem tu tens esse peccado a pesar-te na consciencia. Ora anda lá.

—­Não, tia. Ha muito que lhe faço justiça. Ao principio não digo que não. Mas durou pouco tempo e já estava arrependido. Augusto convenceu-me pela maneira com que me falou, convenceu-me sem provas: e até se, em expiação, me não puz em campo a auxilial-o a justificar-se, é porque elle exigiu que me abstivesse d’isso, e depois, o meu désastre... quero dizer—­emendou, olhando para Christina—­a felicidade que me procurou sob a fórma de doença...

Christina pagou-lhe com um sorriso o galanteio.

O conselheiro, que ficára pensativo depois das primeiras reflexões que lhe ouvimos fazer, disse, suspirando:

—­Estou sentindo verdadeiros remorsos pelo mal que por certo causei áquelle rapaz com as minhas suspeitas. Mas que havia eu de fazer? As apparencias eram-lhe contrarias!... E depois, n’esta vida de politica, apprende-se tanto e tão depressa a duvidar! É sorte minha! Homens, a quem eu estimava devéras, fôram exactamente os que maïs fiz padecer! Senão, vejam: o herbanario, meu companheiro de infancia, e que sempre me teve amizade, apesar das apparencias rudes de que a revestia, dispuzeram-se as coisas de modo que o privei da casa em que nasceu e talvez lhe apressasse com isso a morte... E elle, coitado, vingou-se nobremente; mas vingou-se, porque nunca maïs me sairá da ideia aquella scena da igreja. Augusto, um rapaz que conheci pequeño, e já então de viva intelligencia e de sentimentos nobres... pois tudo se conspirou para o perder, e não só o privei do modesto