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por Oswald, que se alimentou da cultura europeia para gerar suas próprias e desconcertantes criações, contestadoras dessa mesma cultura”.

Se a História do Brasil se inicia com a devoração do bispo Pero Fernandes Sardinha, em 1554, significa que, desde então, vivemos sempre no ato antropofágico, expressamo-nos constantemente com a assertiva “Tupi or not tupi”, a grande dúvida do homem barroco. A dúvida do príncipe Hamlet. Na verdade, Oswald de Andrade provoca essa conexão com o eterno processo de crise existencial, que é bem marcante no Barroco seiscentista e respinga na modernidade, no brado ecoante das vanguardas em solo brasileiro. A todo instante, os aforismos retomam o passado a fim de seduzi-lo e comê-lo. A esse respeito, Oswald de Andrade (1978, p. 77), citando Colombo, afirma:

Na expressão de Colombo, comían los hombres. Não o faziam porém, por gula ou fome. Tratava-ve de um rito que, encontrado também nas outras partes do globo, dá a idéia de exprimir um modo de pensar, uma visão do mundo, que caracterizou certa fase primitiva de toda a humanidade.

Comer a carne do outro, antes da antropofagia, era sinônimo de barbárie, selvageria, portanto, não servia como símbolo da cultura brasileira. Contra esse pensamento Oswald de Andrade se insurge pregando o contraponto, isto é, devolvendo ao mau selvagem, com seu rito canibalesco, o lugar de origem, ressignificando o pensamento sobre a cultura que deu origem ao Brasil. Para o colonizador, nós éramos a cultura do homem selvagem, da bestialidade e a teoria oswaldiana quer rebater esse preconceito, pois como afirma Nascimento (2011, p. 347) “a antropofagia designa preferencialmente o assim chamado latino-americano, como outro absoluto do europeu”. Por isso, o teórico tenta superar o ufanismo romântico e o pessimismo idealista que tomou conta dos intelectuais. Com o intuito de resolver esses impasses, o olhar para o passado contribuiu para compreender todo o processo de formação da nossa identidade, principalmente rompendo com todos os modelos de colonização.

Nesse percurso teórico, “a operação metafísica que se liga ao rito antropofágico é o da transformação do tabu em totem” (CAMPOS, 1978, p. 122). Com influência de Freud, Oswald de Andrade traz para a teoria da antropofagia o percurso do parricídio canibalesco, que corresponde à morte do pai tirânico pelos filhos rebeldes e sua consequente devoração. E isso está aliado ao tema central da antropofagia, a redescoberta da identidade nacional. Ora, na sociedade primitiva evocada pelo antropófago Oswald de Andrade não havia um deus supremo, mas um homem totêmico que servia de ponte com o âmbito sagrado. Essa sociedade não vivia conflitos e contradições, não estava preocupada em dar explicações para as coisas

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Anu. Lit., Florianópolis, v. 21, n. 1, p. 46-57, 2016. ISSNe 2175-7917