Página:Ao correr da pena.djvu/171

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É pena que não se lembrassem de repetir o Roberto do Diabo que acaba justamente às 2 horas, tempo em que cantam os galos.

Tudo neste mundo depende das ocasiões, disse-me um dilettante que vós conheceis: - Se a diretoria tivesse sabido aproveitar a noite de hoje, o Roberto do Diabo estaria apenas no purgatório donde naturalmente o conseguiria tirar algum artigo hieroglífico, maçônico ou brâmine, escrito unicamente para os espíritos sublimes. Então não se veria na dura necessidade de conservar o teatro aberto, recordando atrasados e obrigando os acionistas e os assinantes a pagarem as diabruras, não do Roberto, mas de algum São Bartholomeu que não conhecemos.

Eu não concordo com esta opinião. Julguei a princípio que convinha interromper-se os espetáculos por um mês, ao menos, porém hoje estou convencido que o teatro presta uma tão grande utilidade a esta corte, que a polícia devia intervir para que houvesse representação todas as noites. Se duvidam, vou enumerar-lhes as enormes vantagens econômicas, higiênicas, políticas e morais que resultam do teatro.

Em primeiro lugar, cura constipações pelo sistema homeopático, alivia o reumatismo dos velhos, e dá às mocinhas do tom uma cor baça e amarela, do melhor efeito, a qual os poetas têm convencionado chamar - a orbidez.

Para o médico, homem positivo, isto é o sintoma funesto de alguma consunção; mas o poeta, espírito elevado, que tem a pretensão de viver de ar como os camaleões, extasia-se em face desse rosto macerado pelas vigílias satisfeito por achar uma ocasião de aplicar a sublime comparação do pálido lírio languidamente reclinado sobre a haste delicada.