Página:Ao correr da pena.djvu/184

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— Não, Com os anos aí vem os pensamentos sérios, as grandes coisas, a glória, a ambição, a política, as honras, os estudos graves. Confesse que isto vale mais do que todas estas frivolidades que preocupam o espírito da mocidade, e com as quais se gasta o tempo inutilmente.

Chama a isso frivolidades? O que é então que há neste mundo de sério e de real? A glória, porventura? É interessante; trata-se de bagatela o amor, as verdadeiras afeições, as mais belas expansões de nossa alma, zomba-se do homem que segue por toda parte em vestidinho de uma certa cor, que se mataria por um sorriso, e que guardaria preciosamente uma flor murcha que caísse de um buquê.

Entretanto vós, homem sério e grave, que calculas refletidamente, que do alto da vossa importância lançais um olhar de desprezo para essas futilidades do mundo, que fazeis vós?

Sacrificais a vida, a preguiça, o prazer, como diz Alfonse Karr, para um dia atar à gola da casaca uma fita de uma certa cor. Enquanto nós suplicamos um sorriso de uma bela mulher, vós daríeis um dedo da mão pelo sorriso do ministro ou do conselheiro de Estado.

Desprezais a moda; é uma coisa ridícula, mas sonhais noite e dia com a farda bordada. Se nós esquecemos tudo para, em um momento de expansão, colher numa linda boquinha rosada duas palavras que nos abrem o céu, vós renegais os amigos, prostituís a consciência unicamente para ter o prazer de ouvir (qu glória!) um passante dizer-vos - Sr.Barão.

Oh! se tudo é ilusão e quimera neste mundo, meu Deus, deixai-me os lindos sonhos da mocidade, deixai-me as visões poéticas de meus vinte anos, as minhas horas de cismar, deixai-me todas estas futilidades, e reservai para outros as coisas sérias, calmas e refletidas. Mas isto é um vão desejo. Daqui mais a alguns anos tudo terá passado, e também entraremos, como os outros, na luta dos homens graves e sisudos, e, como eles, lançaremos um olhar de desdém para essas páginas douradas da nossa vida. Apenas, nas horas da solidão,