Página:As Minas de Prata (Volume I).djvu/108

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E acabando de subir, apertou a mão que lhe estendia o Provincial Fernão Cardim.

— É de mister que Deus mande um dia de ano-bom, para que os seus servos possam ter-vos nesta sua casa.

— Tão poucas não são as festas do ano, padre provincial; e elas não passam sem me ver sentado à mesa deste convento, onde a vossa amizade me acolhe com verdadeiras mostras de bondade.

— Não é razão, carissime doctor, para nos privar de vossa companhia nos dias não santificados; se eu fora vosso confessor, vos daria essa penitência por algum pecadozinho que deveis ter cometido na mocidade.

— Não era preciso ir tão longe; hoje mesmo, padre provincial. Sou homem, e o salmista o disse: Homo, natus de muliere, repletur multis miseriis...

— Livre-nos Deus de ofender vossa modéstia. Mas passando a assunto profano, vindes disposto a jogar nossa partida do costume?

— Decerto, e por sinal que me deveis uma desforra da última vez. Preparastes um lance que me desorientou bastante.

— É verdade! respondeu o provincial, esfregando