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N. 10.)
DOMINGO 6 DE NOVEMBRO
( 1859.





O ESPELHO


Revista de litteratura, modas, industria e artes




DIRECTOR E REDACTOR EM CHEFE, F. ELEUTERIO DE SOUSA.




SUMMARIO — D. Pedro II. (Esboço biographico) — Romance. O testamento do Sr. de Chauvelin — A hospitalidade no Brazil (Uma excursão por Minas) — O Judeo errante (lenda) — O Charuto — A Dama dos cravos vermelhos. — Revista de Theatros — Poesias, Força de vontade. A Ignez.



D. Pedro II.

(Esboço biographico)

Si descrever a vida de um amigo ou de qualquer outro homem é um encargo por demais penoso, quanto mais não será o enumerar os principaes acontecimentos que se tem dado na d'aquelle, que pelo voto do povo acha-se collocado em uma altura d'onde elles mal podem ser apreciados!

Não é, pois, uma analyse completa da vida do Imperador, que aqui pretendemos traçar: esta tarefa pertencera mais tarde ao historiador, que, dia por dia, conto seu escalpello, aprofundar-se-ha no estudo ainda das menores circumstancias.

O historiador tem um reinado inteiro, pode apreciar os factos pelas consequencias que se seguiram, pode mesmo penetrar as intenções; tem espaço, tem vagar, convem-lhe estender-se; a nós falta espaço nas acanhadas columnas d'esta revista, falta-nos tempo, e sobretudo falta-nos um dos ramos mais proficuos para o historiador — o assumpto político. As conveniencias impõem-nos esta falta, ou antes o calculo impõe-nos este silencio.

Consideraremos, pois, a vida de D. Pedro II como a vida do um homem, pela mão do Deus ou do destino collocado acima dos outros homens, para reinar e zelar os seus interesses.

Um dia ha que se tornou notavel para o Brasil, o dia 19 de Janeiro do 1808, em que chegou o principe regente, que depois fundou o imperio americano.

Descendente de uma das tres principaes casas reinantes da velha Europa, a dos Bourbons e a de Bragança e Austria, trouxe comsigo aquelle principe o germen do mais lisongeiro futuro para o grande paiz, que mais tarde, talvez não nos nossos dias, pode vir a occupar um importante logar no mappa das nações.

O Brasil era ainda colonia de Portugal quando aqui chegou o imperador Pedro I.

Não citaremos as numerosas datas quo succederam á sua chegada: fora isto entrar na politica, que terá erros, terá virtudes, mas cuja analyse deixamos de parte.

D. Pedro I tinha por esposa D. Carolina Josepha Leopoldina, Archiduqueza d'Austria. D'este consorcio cinco filhos nasceram: D. Maria da Gloria, depois Rainha de Portugal e hoje fallecida, D. Januaria, condessa d'Aquila, D. Paula, fallecida a 16 de Janeiro do 1833, D. Francisca, princeza de Joinville, e D. Pedro, hoje Imperador do Brasil.

Na pia baptismal recebeu o principe os nomes de Pedro de Alcantara, João, Carlos, Leopoldo, Salvador, Bibiano, Francisco, Xavier de Paula, Leocadio, Miguel, Gabriel, Raphael, Gonzaga.

Contava apenas um anno quando sua mãe morreu, a 11 do Dezembro de 1826; cinco annos depois, a 7 de Abril de 1831, teve de separar-se de seu pai, recebendo n'esta separação o sceptro do maior imperio das duas mais conhecidas partes do mundo.

Durante a sua maioridade esteve á frente dos destinos do Brasil o conselheiro J. Bonifacio de Andrade e Silva a cujos cuidados D. Pedro I confiou a educação de seu filho, e depois o marquez de Itanhaem. Os mais respeitaveis mestres d'aquele tempo esmeraram-se por darem ao principe uma educação digna do povo sobre que em breve começaria a reinar.

A 23 do Julho de 1840 foi proclamada sua maioridade, e prestado o juramento no Senado, assumio o poder tendo apenas a idade de 14 annos e meio. Foi inaugurado este reinado com