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Página:Diana de Liz - Memorias duma mulher da epoca.pdf/185

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Diana de Liz: Memorias


 

rasgados, uma bôca expressiva e um pescoço de lírio ― mas é tambem incontestavel que um narizito irregular me descontenta e que estas impertinentes sardas resistem a todos os pretensos remédios de perfumaria, transparecendo, teimosas, sob a velutina rescendente...

Quanto a cultura intelectual, estou, como sabes, em condições de compreender uma ou outra alusão á longevidade de Matusalem, ao prato de lentilhas de Esaú e aos talentos poéticos de Byron, Camões e Dante ― cujas obras grandiosas aliás nunca li. Mas, se tu soubesses como me sinto véxada, humilhada, inferior, junto da Maria Moniz, que cita grêgos e troianos (o Alvaro Lima afirma que ela o faz para «épater le bourgeois» e não sabe o que diz, mas eu não o acredito) e da Nelinha Sampaio, que traduz Ibsen e sabe, só pela descrição de um quadro, se êle é de Van Dick ou de Botticelli! E é por mim que João Emilio, sábio e artista que discute letras, ciencias e modas com o mesmo seguro gosto, se mostra quási apaixonado!

Mas, o que talvez te surpreenda ainda mais, minha querida e discreta confidente, é que eu não amo João Emilio nem descubro em mim o mais leve indicio de que possa vir a amá-lo. Passou o ensejo propicio para isso. Nos primeiros tempos em que o conheci e

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