Página:Diva - perfil de mulher.djvu/83

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natureza e a arte não derramavam sobre aquela festa noturna! Um céu abriu-se ali; e a deusa dele atravessava com gesto olímpio a via-láctea dos salões resplandecentes. Seu passo tinha o sereno deslize, que foi o atributo da divindade; ela movia-se como o cisne sobre as águas, por uma ligeira ondulação das formas.

A multidão afastava-se para deixá-la passar sem eclipse, na plenitude de sua beleza. Assim, por entre o esplêndido turbilhão, ela assomava como um sorriso; e era realmente o sorriso mimoso daquela noite esplêndida.

Eu contemplava-a de longe e arredado. Sentia-me triste. O dia inteiro, Emília, absorvida pela festa, nem sequer notara a minha presença. Esquecia-se de si própria, das homenagens ardentes rendidas à sua beleza, para ocupar-se exclusivamente dessa exibição de luxo e riqueza, que ela preparara como uma inspiração de artista ou poeta, como um painel ou um poema.

Foi só quando o edifício iluminou-se e a orquestra derramou torrentes de harmonia que Emília recolheu em si. Sem dúvida nesse momento ela deixou de ser artista para ser mulher. Vi-a algum tempo absorta e isolada em sua alma, no meio da turba de adoradores.

De repente sobressaltou-se; como uma estrela, que se desnubla em noite límpida, começou a cintilar. A quadrilha a chamava. Ela atravessou a sala, semeando sorrisos e enlevos n'alma daquela multidão extática, e desapareceu.

Fiquei onde estava, e sem ânimo de segui-la.