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HISTORIAS DE REIS E PRINCIPES


que de Saboya tem sido apreciada por modos diversos; mas a sua opinião exalça-lhe a memoria. Notando que Brantome faz referencia á altivez de D. Beatriz, diz que, tendo a duqueza seguido a causa de Hespanha, este facto explica o resentimento de Brantome. Dueros, na sua Histoire d'Emmanuel Philibert, explica essa altivez pela firmeza de caracter, que contrastava com a indecisão do marido, e entende que D. Beatriz deve ser collocada a par das mulheres fortes que a historia celebra.

Hoje, conhecidos os importantes documentos que Claretta deu á estampa, a lenda d'essa paixão contrariada, em que D. Beatriz e Bernardim Ribeiro durante tantos annos figuraram como victimas, recebeu por certo mais um golpe.

Se o trovador tivesse sido amado pela infanta, se, como suspeitava Alexandre Herculano, houvesse chegado até Saboya o segredo d'esses amores infelizes, de que Carlos III quereria tirar represalias, o caracter de D. Beatriz, em vez de se dobrar em carinhosas demonstrações de affecto para com o marido, haveria reagido pelo desdem, e até pelo desprezo.

Mas não é isso o que vemos das proprias cartas da infanta.

E, se por hypothese, D. Beatriz se soube algum dia amada de Bernardim Ribeiro, a noção do dever apagou completamente no seu coração a recordação d'esse amor infeliz. Seria, n'esse caso, um idyllio que tivera a duração de um meteoro, e cujas proporções a historia, rigorosamente descarnada, não póde avultar.