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HISTORIAS DE REIS E PRINCIPES


vou comsigo para Sevilha Fernão da Silveira, disfarçado em mendigo.

Salvo em Castella, o foragido foi bem acceito na côrte de Izabel a Catholica, e lá lhe acudia com auxilios pecuniarios o conde de Benavente, fidalgo castelhano, que fôra grande amigo do pai de Fernão. Mandava-lhe todos os mezes um saco com duzentos escudos, mas Fernão da Silveira só tirava cinco, e devolvia o resto. O castelhano todos os mezes insistia em igual remessa, e o portuguez não deixava de insistir na recusa da quantia excedente a cinco escudos.

Comprehendeu o castelhano que era aquelle um homem retemperado de invencivel altivez lusitana, e, para acabar de experimental-o, certo dia em que se juntaram com outros fidalgos na ante-camara dos reis catholicos, deixou o conde cahir uma luva. Fernão da Silveira, em vez de se dar pressa em levantal-a, sentou-se n'um bufete. O conde de Benavente não desgostou d'esta arrogancia tão conforme ao espirito hespanhol, e celebrou-a. A noticia do facto espalhou-se com applauso na côrte de Castella, e chegou á de Portugal, onde D. João II, comquanto sempre resentido dos aggravos recebidos de Fernão da Silveira, e sempre implacavel nos seus projectos de vingança, commentou a noticia com esta phrase sentenciosa:

—Fernão da Silveira aonde chegar ha de sempre ter lugar.

D. João II mandára citar por carta de éditos