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HISTORIAS DE REIS E PRINCIPES


do medo, não evitava as horas sinistras da noite, por mais que Izabel Rodrigues lh'o pedisse; mas tinha sempre presente o espectro da morte por traição.

Quando recolhia a casa, esquecia nos braços carinhosos da manceba, que lhe apresentava o filho, os sobresaltos d'aquelle dia, e repousava como o naufrago n'um porto de abrigo.

Ás vezes tinha furias de raiva contra D. João II, o assassino do duque de Vizeu, o flagello da nobreza portugueza, como elle lhe chamava. Retratava-o moralmente como um tyranno sedento de sangue e poder. Justificava a reacção da nobreza, e a sua, declamava como um verdadeiro jacobino do seculo xv, como um sans-culotte que se tinha antecipado trezentos annos aos da demagogia franceza.

A manceba ouvia-o tremendo com o filho sentado nos joelhos, e procurava aquietal-o com palavras brandas.

Mas Fernão da Silveira perguntava-lhe se poderia ter animo tranquillo e sereno um homem a quem D. João II, se o apanhasse, faria esquartejar, pregando-lhe os quartos nas portas de qualquer cidade ou villa, e a cabeça no pelourinho da praça publica.

Lembrava-lhe que o odio de D. João II costumava ser tão profundo e sanguinario, que não respeitava nem as regalias de nascimento nem os laços de parentesco.

Perguntava-lhe se não sabia que o duque de Bragança fôra decepado no cadafalso da praça de Evora; que em Abrantes cevára D. João II a sua