Página:Luciola.djvu/104

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O Couto apressou-se a oferecer-lhe a mão para ajudá-la a entrar no carro.

— Até logo! disse-lhe ela bem alto.

Podia-me restar a menor dúvida? Lúcia era amante do Couto.

Enquanto acompanhava com os olhos a cortesã desprezível que se balançava lubricitante no seu novo carro, insultando com o luxo desmedido as senhoras honestas que passavam a pé, sabe de que me lembrei? Não foi da ceia em casa de Sá, nem do mês que acabava de passar; foi unicamente da suave aparição da Rua das Mangueiras no dia da minha chegada. São extravagâncias da memória. Quem conhece o fio misterioso que leva o pensamento através do labirinto do passado a uma lembrança remota?

— Rei morto, rei posto! disse-me o Cunha, que chegara à porta para ver Lúcia entrar no carro.

— Não sei a que se refere!

— Referia-me, Sr. Silva, continuou apontando para o carro que ainda aparecia, àquele trono de sedas e veludos que vagou esta manhã, e que uma hora depois já estava preenchido.

— Enganou-se, Sr. Cunha, respondi no mesmo tom de gracejo, fui apenas regente durante uma curta vacância.

— Pois não é isso o que se dizia.

— O que se dizia então? repliquei tornando-me sério, porque as palavras de Sá me acudiram ao pensamento.

— Dizia-se que o senhor mudara o sistema de governo daquele estado, e sucedera na qualidade de autocrata aos reis constitucionais, como eu tive a honra de sê-lo em certo tempo.