Página:Luciola.djvu/35

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um encanto, um contorno para a estátua ideal que a imaginação moldava, aperfeiçoando a capricho.

A medida que fazíamos alguma descoberta astronômica, ou na região dos planetas de primeira e segunda ordem, ou entre as nebulosas da última esfera, comunicávamos ao companheiro, que imediatamente assestava o telescópio. Começavam então as competentes observações sobre o astro. Já tínhamos examinado algumas constelações ou grupos de estrelas brilhantes e dois ou três planetas superiores, discorrendo Cunha sobre a sua órbita, os seus satélites e o ponto da elíptica em que se achavam. Tínhamos lobrigado no fundo de um camarote a cauda luminosa de um cometa; finalmente estudávamos um aerólito ou estrela cadente, conjeturando sobre as causas prováveis do fenômeno atmosférico-financeiro.

— Aí está a Lúcia, disse Cunha Na segunda ordem, quarto camarote depois de vésper.

Assim havíamos batizado um planeta que se recolhia infalivelmente entre nove e dez horas da noite.

Esqueci-me dizer que a ópera começara; as nossas observações podiam fazer-se então em céu desnublado. Vi Lúcia sentada na frente do seu camarote, vestida com certa galantaria, mas sem a profusão de adornos e a exuberância de luxo que ostentam de ordinário as cortesãs, ou porque acreditem que a sua beleza, como as caixinhas de amêndoas, cota-se pelo invólucro dourado, ou porque no seu orgulho de anjos decaídos desejem esmagar a casta simplicidade da mulher honesta, quantas vezes defraudada nessa prodigalidade.

Não me posso agora recordar das minúcias do traje de Lúcia naquela noite. O que ainda vejo