Página:Luciola.djvu/89

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que houvesse percebido; e contudo não me dissera uma palavra.

A tarde porém pareceu-me ouvir ao longe rugir a tempestade.

— Mandei comprar um camarote!

— Se querias ir ao teatro, por que recusaste o que te ofereci ?

— Estou tão rica hoje! Não sei o que hei de fazer do dinheiro, respondeu sorrindo.

Veio nesse sorriso um espinho que entrou-me n'alma; olhei-a fixamente, porém já o seu rosto estava calmo e sereno. A consciência que eu tinha, de não ser bastante rico para essa mulher, pungia-me tanto e a cada momento, que à menor palavra dúbia, ao menor gesto equívoco, os meus brios se revoltavam. Farejava uma ironia até no seu próprio desinteresse, que podia ser inspirado pelo conhecimento de minha pobreza.

Mas essa foi a última ocasião em que Lúcia deu azo à minha desconfiança; desde então quando eu ia à gaveta do toucador, por mais que o disfarçasse, ela adivinhava imediatamente, não sei por que secreta revelação; e mal eu me sentava ao seu lado dizia-me com uma mansuetude e uma gratidão sublime, apertando a minha mão ao seio:

— Obrigada!

Como explicar essa rápida e extraordinária mudança? A mulher que dois dias antes se indignava com um oferecimento delicadamente feito, agora não só recebia o serviço oferecido, mas o agradecia com tanta efusão e reconhecimento! Teria nesse momento grande e urgente necessidade de dinheiro, ou a sua primeira recusa não fora sincera?

Compreenda, se pode; quanto a mim, expliquei as repugnâncias de Lúcia por um resto de pudor; e