na ideia de que não são os cárceres que modificarão as sociedades, mas a luz clara e purificadora de escolas amoraveis e atraentes.
O carcereiro que guarda este portão, hesita em abrir antes de saber o que desejo.
Parece que o meu aspecto lhe não inspira desconfiança.
As chaves que abrem os portões sinistros, com penas para os que entram e desafôgo para os que saem sedentos de liberdade, desceram os pesados gonzos. E lá entrei, emfim.
Constára-me que não era fácil obter essa entrevista. Mas parece que algum poder invisível patrocinava o meu empenho, porque minutos depois obtia consentimento da direcção para entrevistar o humilde herói dêste drama.
Um empregado da secção onde se acha a oficina de sapataria em que o Manuel trabalha, encarregado de escrituração, indicou-me o corredor por onde devia seguir. Mas chegada a outro corredor, hesitei para me orientar da direcção que devia tomar.
Nesse momento, distingui um perfil masculino e claro, de linhas retocadas de uma certa expressão, que destacava entre a penumbra do escuro corredor, assomando por entre as grades do portão. E uma voz de timbre agradável e melancólico perguntou brandamente:
— Que deseja, minha senhora?
— Procuro um preso que se chama Manuel Claro, detido por crime de rapto e cárcere privado.
Uma nuvem de tristeza repentina que me impressionou, contraiu as feições pálidas do encarcerado. E com um sorriso calmo e resignado respondeu:
— Sou eu mesmo.
Imensamente curiosa por anotar todos os fenómenos de telepatia, interroguei logo;
— Porque estava o senhor aqui neste momento?