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104 NEGRINHA

pel, coisa de ver o desenho que sae—Aldrovando apalpava com emoção erotica a obesa grammatica de Augusto Freire da Silva. Era o latejar do furunculo philologico que o determinaria na vida, para matal-o, afinal.

Deixemol-o, porém, evoluir e tomemol-o quando nos serve, aos 40 annos, já a descer o morro, arcado ao peso da sciencia e combalido de rins. Lá está elle em seu gabinete de trabalho, fossando, á luz dum lampeão, os pronomes de Felinto Elysio. Corcovado, magro, secco, d'oculos de latão no nariz, créca, celibatario impenitente, dez horas de aulas por dia, duzentos mil réis por mez e o rim volta e meia a fazer-se lembrado.

Já leu tudo. Sua vida foi sempre o mesmo insulso idyllico com as veneraveis constaneiras onde cabeceiam os classicos lusitanos. Versou-os, um por um, com mão diurna e nocturna. Sabe-os de cór, conhece-os pela morrinha, distingue pelo faro uma sécca de Lucena duma esfalfa de Rodrigues Lobo.