Página:O Barao de Lavos (1908).djvu/67

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abandalhar-se ao contacto da ínfima porcaria. Sofria o aviltamento da sua diátese aberrativa. Com os longos dedos trémulos afagava e corria demoradamente aquele sórdido personagem, cuja refratária imundície largava a mesma aspereza crassa que nos deixa na mão o correr do pêlo a um cão vadio. Por fim, foi ao trapo engordurado e negro que o rapaz trazia a fazer de camisa, e quis despregar o alfinete que lho cingia ao pescoço. Mas logo o efebo, acudindo também com a mão e corando:

— Deixe estar...
— Tolo! — insistiu a meia voz o barão, teimando. E abriu-lhe a camisa, que deixou ver um colo alvo, carnudo, cheio, de gordos peitorais amplos, saltantes, e de uma bela cor veludosa e macia, como de fruto que amadura.

O barão inflamou-se. Um calor de brasa mal apagada subia-lhe aos olhos, mordia-lhe sob a epiderme, latejava-lhe nas pontas dos dedos, tumultuariamente... Colheu, espremeu com fúria um dos refegos desse peito apolíneo, e cravou-lhe um beijo sôfrego, ardente, bárbaro, um destes beijos decisivos, formais, que despertam um amor incondicional ou uma inimizade eterna, beijo em que ele estilara toda a ânsia da sua alma, e que era a síntese das suas turbulências fatais de sodomita.

Aquela carne oleosa e suja, para quem a água fora sempre um mito, deu-lhe uma gustação salgada, que o estonteou. — Despe-te lá! — ordenou, largando o efebo e erguendo-se num ímpeto irresistível. O rapaz, sinceramente envergonhado, recusava-se; mas o barão, imperioso, breve, todo vibrante na tirania de um destes