Página:O Crime do Padre Amaro.djvu/271

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Amaro deu passos irritados pela cozinha; e voltando ao pé dela, com a voz abrandada, gestos muito amigos:

— Mas suponhamos que não era ele o autor do Comunicado, que não tinha insultado em letra redonda a sua mamã, o senhor cônego, os seus amigos: resta ainda a sua impiedade! Veja que destino o seu se casasse com ele! Ou teria de condescender com opiniões do homem, abandonar as suas devoções, romper com os amigos de sua mãe, não pôr os pés na igreja, dar escândalo a toda a gente honesta, ou teria de se pôr em oposição com ele, e a sua casa seria um inferno! Por tudo uma questão! Por jejuar à sexta-feira, por ir à exposição do Santíssimo, por cumprir o domingo... Se se quisesse confessar, que desavenças! Um horror! E sujeitar-se a ouvi-lo escarnecer os mistérios da fé! Ainda me lembro, na primeira noite que aqui passei, com que desacato ele falou da Santa da Arregaça!... E ainda me lembro uma noite que o padre Natário aqui falava dos sofrimentos do nosso santo padre Pio IX, que seria preso, se os liberais entrassem em Roma... Como ele tinha risinhos de escárnio, como disse que eram exagerações!... Como se não fosse perfeitamente certo que por vontade dos liberais veríamos o chefe da Igreja, o vigário de Cristo, dormir num calabouço em cima dumas poucas de palhas! São as opiniões dele, que ele apregoa por toda parte! O padre Natário diz que ele e o Agostinho estavam no café ao pé do Terreiro, a dizer que o batismo era um abuso, porque cada um devia escolher a religião que quisesse, e não ser forçado, de pequeno, a ser cristão! Hem, que