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OS ESCRAVOS

Do Sul, do Norte... do Oriente irrompem
Dorias, Siqueiras e Machado então.
Vem Pedro Ivo no cavallo negro
Da lua pallida ao fatal clarão.

O Tiradentes sobre o poste erguido
Lá se destaca das ceruleas télas,
Pelos cabellos a cabeça erguendo,
Que rola sangue, que espadana estrellas.
E o grande Andrada, esse architecto ousado,
Que amassa um povo na robusta mão.
O vento agita do tribuno a toga
Da lua pallida ao fatal clarão.

A estatua range. estremecendo move-se
O rei de bronze na deserta praça.
O povo grita: Independencia ou morte!
Vendo soberbo o Imperador, que passa.
Duas corôas seu cavallo pisa,
Mas duas cartas elle traz na mão.
Por guarda de honra tem dous povos livres.
Da lua pallida ao fatal clarão.

Então, no meio de um silencio lugubre,
Solta este grito a legião da morte:
“Aonde a terra que talhámos livre,
Aonde o povo que fizemos forte?
Nossas mortalhas o presente immunda
No sangue escravo, que nodôa o chão.
Anchietas, Gracchos, vós dormis na orgia,
Da lua pallida ao fatal clarão.