Página:Obras de Manoel Antonio Alvares de Azevedo v2.djvu/333

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mas no céu... Meu filho que matei... antes de nascer...

Deu um grito: estendeu convulsivamente os braços como para repelir uma idéia, passou a mão pelos lábios como para enxugar as ultimas gotas de uma bebida, estorceu-se no leito, lívida, fria, banhada de suor gelado, e arquejou... Era o ultimo suspiro.

Um ano todo se passou assim para mim. O velho parecia endoidecido. Todas as noites fechava-se no quarto onde morrera Laura: levava ai a noite toda em solidão. Dormia? ah que não! Longas horas eu o escutei no silêncio arfar com ânsia, outras vezes afogar-se em soluços.

Depois tudo emudecia: o silencio durava horas — o quarto era escuro: e depois as passadas pesadas do mestre se ouviam pelo quarto, mas vacilantes como de um bêbedo que cambaleia.

Uma noite eu disse a Nauza que a amava: ajoelhei-me junto dela, beijei-lhe as mãos, reguei seu colo de lágrimas. Ela voltou a face: eu cri que era desdém, ergui-me

— Então Nauza, tu não me amas, disse eu.

Ela permanecia com o rosto voltado.

— Adeus, pois: perdoai-me se vos ofendi: meu amor e uma loucura, minha vida e uma desesperança — o que me resta? Adeus, irei longe — longe daqui talvez então eu possa chorar sem remorso.

Tomei-lhe a mão e beijei-a.

Ela deixou sua mão nos meus lábios.