Página:Obras de Manoel Antonio Alvares de Azevedo v2.djvu/345

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— Silencio, Bertram! teu cérebro queimaram-to os vinhos, como a lava de um vulcão as relvas e flores da campina. Silencio! és como essas plantas que nascem e mergulham no mar morto: cobre-as uma cristalização calcaria, enfezam-se e mirram. A poesia, eu t'o direi também por minha vez, e o vôo das aves da manha no banho morno das nuvens vermelhas da madrugada, e o cervo que se role no orvalho da montanha relvosa, que se esquece da morte de amanha, da agonia de ontem em seu leito de flores!

— Basta, Claudius: que isso que ai dizes ninguém o entende: são palavras, palavras e palavras, como o disse Hamlet: e tudo isso e inanido e vazio como uma caveira seca, mentiroso como os vapores infectos da terra que o sol no crepúsculo irisa de mil cores, e que se chamam as nuvens, ou essa fade zombadora e nevoenta que se chama a poesia!

— A historia! a historia! Claudius, não vês que essa discussão nos fez bocejar de tédio?

— Pois bem, contarei o resto da historia. No fim desse dia eu tinha dobrado minha fortuna.

No dia seguinte eu a vi: era no teatro. Não sei o que representaram; não sei o que ouvi, nem o que vi; sei só que lá estava uma mulher — bela como tudo quanto passe mais puro a concepção do estatuário. Essa mulher era a duquesa Eleonora No outro dia vi-a num baile Depois Fora longo dizer-vos: seis meses! concebes? seis meses de agonia e desejo anelante — seis meses