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procurasse desviar a attenção do verdadeiro motivo do seu estado nervoso.

—Não estou disposto a discutir a legitimidade das pretenções aristocraticas. Deixemos isso. Dizias tu que fugisse de me apaixonar por Bertha. Reconheço a prudencia do conselho. Porque é certo que ha n'aquella rapariga um não sei quê tão superior ao que por ahi vejo que, se eu não tivesse de deixar dentro em pouco tempo estes sitios, para… arranjar um modo de vida… não juro que pudesse ser indifferente áquelles encantos. Demais ha entre nós recordações de infancia e quer parecer-me que ella ainda as não esqueceu.

Jorge, sem responder, continuava a passeiar no quarto.

—Mas aquella luz não me sahe do pensamento—proseguiu Mauricio.—Que estará fazendo a pobre rapariga a estas horas da noite? Não te parece que está alguem á janella?

—Mal se póde divisar atravez das folhas d'esses castanheiros; mas julgo que sim.

—Pobre pequena! Alli, só, n'esta aldeia. Está scismando em como poderão ter realidade as vagas aspirações do seu coração.

Jorge sorriu, e acrescentou com sarcasmo:

—Ou de que maneira ha de corresponder-se com algum Romeu collegial, que deixou suspirando em Lisboa.

—Estás insupportavel, Jorge.

—Uma experiencia!—exclamou, passados alguns momentos de silencio, Jorge, voltando á janella, onde permanecia ainda Mauricio.—Tu estás dando tractos á imaginação para adivinhares qual será o pensamento de Bertha. Eu aventuro uma supposição. Assim como nós vimos aquella luz, ella vê esta, e talvez a nossa sombra na janella. É natural que supponha que para alli dirigimos as vistas, e muito provavel que adivinhe que fallamos d'ella. Sabendo-se observada, não ousa apagar a luz, por querer mostrar que tambem prolonga as suas rêveries por noite alta.

—Ora! deixa-me com as tuas observações!