Página:Peregrinaçam 04 24r-29v.djvu/4

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Perigrinaçoẽs de

me compraſſe, me lançaraõ fora de caſa, por me não darem de comer, pois lhe não podia preſtar para nada. E auendo ja trinta & ſeis dias que eſtaua fora do ſeu poder, deitado ao almarge, como ſindeyro ſem dono, pedindo de porta em porta algũa fraca eſmolla que muyto raramente me dauão, por ſer pobriſsima toda a gente daquella terra; permitio noſſo Senhor que jazendo eu hũ dia lançado na praya ao Sol, lamentando minhas deſauenturas, acertou de paſſar hum Mouro natural da ilha de Palimbão, que ja por algũas vezes tinha ido a Malaca, & conuerſado com Portugueſes. Eſte vendome jazer aſsi deſpido na area, me perguntou ſe era Portuguez, & que lhe não negaſſe a verdade, a que eu reſpondy que ſy, & de parẽtes muyto ricos, & que por mim lhe poderião dar quanto pediſſe, ſe me leuaſſe a Malaca, porque era ſobrinho do Capitaõ da fortaleza, filho de hũa ſua irmam: a que elle reſpondeo: pois, ſe es eſſe que dizes, que peccado foy o teu por onde vieſte atão triſte eſtado como eſſe em que te vejo? eu então lhe dey conta miudamente da minha perdiçaõ, & da maneyra q̃ os ſete peſcadores aly me trouxerão, & como ja me tinhão lãçado fora de caſa, por não acharẽ quẽ me cõpraſſe. Elle dando moſtras de grãdiſfimo eſpãto, deſpois de eſtar algũ eſpaço pẽſatiuo, me diſſe. Eu (como podes ſaber) ſou hũ mercador pobre, & tão pobre, q̃ por minha poſsibilidade não chegar a mais q̃ a cem pardaos, me mety neſte trato das ouas dos ſaueis, cuydando q̃ por eſta via pudeſſe ter melhor remedio de vida, o que por minha mofina não pude, & porq̃ agora tenho ſabido que em Malaca poſſo fazer algum proueito, ſe o Capitão & os officiais da alfandega me não fizerẽ os agrauos de q̃ tenho ouuido queixar a muytos que lhe fazẽ neſſa fortaleza nas fazendas q̃ a ella leuão, folgaria de yr là: & ſe te parecer que por teu reſpeito poſſo eu là yr ſeguro de receber opreſſaõ ou agrauo, entenderey em te comprar aos peſcadores de que me dizes que es catiuo. Eu lhe reſpondy com aſſaz de lagrimas, que muyto bem via que não eſtaua eu de maneyra paraque ſe elle fiaſſe do que lhe eu diſſeſſe, aſsi pelo baixo eſtado em que me via, como porque lhe poderia parecer q̃ eu, por deſejar de me ver liure de tão triſte catiueyro, lhe podia fazer mais caſo de mim do que là em Malaca podia achar, mas que ſe elle ſe quiſeſſe fiar em meu juramento, ja que então não tinha outro penhor que lhe deſſe, que eu lhe juraria, & lhe daria hum eſcrito meu que ſe me leuaſſe a Malaca, que o Capitão lhe faria por iſſo muyta honra, & lhe não tomarião de ſua fazenda couſa nenhũa, & lhe pagariaõ dez vezes dobrado tudo o que por mim deſſe. O Mouro me reſpondeo: ora ſou contente de te comprar, & leuarte a Malaca, com tanto que não digas nada diſto que agora paſſey comtigo, porque me não aleuãtem o preço tão alto que te naõ

poſſa