Panegírico

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Panegírico
por Manuel Botelho de Oliveira


Ao Excelentíssimo Senhor
Marquês de Marialva,
Conde de Cantanhede,
no tempo que governava
as armas de Portugal

I
Agora, Aquiles Lusitano, agora,
Se tanto concedeis, se aspiro a tanto,
Deponde um pouco a lança vencedora,
Inclinai vossa fronte ao rude canto:
Se minha veia vossa fama adora,
Corra em Mavórcio, corra em sábio espanto,
Cheia de glória, de Hipocrene cheia,
No Mundo a fama, no discurso a veia.

II

Sua genealogia Donde descendem os Meneses

Vós, Ramo ilustre de ũa excelsa planta,
Que em fecunda virtude enobrecida,
Entre os Troncos mais altos se levanta,
Grande na estirpe, no valor crescida:
Tão nobre sempre, que em nobreza tanta,
Com água não, com sangue foi nascida,
Da Infanta heróica; dando em tempos muitos
De espadas folhas, de vitórias fruitos.

III

começou a ensaiar-se na guerra com o exercício da caça

Escassamente quinze Maios eram,
Que abrem do tenro buço os resplandores,
Quando logo no peito vos alteram
Guerreira propensão vossos Maiores:
Venatório exercício pretenderam
Vossos brios, se verdes superiores,
Vendo em desejos de tratar escudos
De Cíntia agrados não, de Marte estudos.

IV

Correndo a cavalo

Quantas vezes o bruto generoso,
Que em virtude do impulso soberano
Alterna as plantas gravemente airoso,
Correndo Move a carreira loucamente ufano;
a cavalo Seguia ao cervo, que de vós medroso,
Asas lhe dava aos pés o próprio dano,
De sorte que seguiu no mesmo alento,
Não bruto ao bruto, porém vento ao vento.

V
Entre os ócios da paz já valoroso
Ostentáveis, Senhor, ao mesmo instante
No peito denodado, e gesto airoso,
Alentado valor, belo semblante;
De sorte pois, que em gênio belicoso,
De sorte pois, que em gentileza amante,
Unindo as prensas de ũa, e outra sorte,
Éreis galhardo Heitor, Narciso forte.

VI

Sua mocidade, e prudência

Na manhã tenra da florida idade,
Onde se ofusca a luz do entendimento,
Com névoas de apetites a vontade,
Com nuvens de loucura o pensamento:
Na manhã tenra enfim a claridade
Da prudência mostráveis sempre atento,
Qual dia belo, que em manhã celeste
Não se orna nuvens, não; raios se veste.

VII

Sua ciência na mesma idade

Quando vosso primor alimentava
Os doutos partos do sutil juízo,
Lusitânia feliz vos aclamava,
Entre verde saber maduro siso:
Sua ciência na Lusitania feliz vos admirava,
Mesma idade Quando entre ostentações de sábio aviso
Frutificava em prevenido abono
Na verde Primavera o rico Outono.

VIII

Restauração de Portugal, em que teve grandes parte o Senhor Marquês

Quando a Pátria sujeita se rendia
Do Castelhano Império à força crua,
Oh como infelizmente se afligia,
Fúnebre, triste, desmaiada, nua!
Depois isenta da violência impia,
Despindo as dores da tristeza sua
amou-se no ardor de vossa espada
Festiva, alegre, valorosa, ornada.

IX

Ao mesmo

Descingindo da fronte belicosa
As verdes folhas da Arvore funesta,
Dourando a nuvem d'ânsia lastimosa,
O pranto serenou da mágoa infesta:
Adornada escarlata generosa,
Entre a voz popular da heróica festa
Juntou, prevendo o forte, e fausto agouro,
Na mão a espada, na cabeça o louro.

X

Ao mesmo

Roma já não se jacte por ufana
De Cúrcio o arrojo, na lealdade pio,
Não solenize já por soberana
De Fábio a testa, de Marcelo o brio:
Pois logra em vós a gente Lusitana,
Pois em vós com mais crédito avalio,
(Unindo três Heróis neste desvelo)
Outro Cúrcio, outro Fábio, outro Marcelo.

XI

Seu casamento

Vendo o frecheiro Deus que valoroso
Vosso peito se opunha ao fogo ativo,
Himeneu vos prendeu por amoroso,
Cupido vos frechou por vingativo:
Sendo vós igualmente amante airoso,
Vós logrando igualmente esforço altivo,
Se ornou no forte ardor, na doce chama
Mavorte o Mirto, Citeréia a grama.

XII

À Senhora Marquesa de Marialva com que casou o Senhor Marquês

Diga este Amor aquela Aurora, aquela
Descendente do Herói, que em brio tanto
Brilhando em seu valor invicta estrela,
De Lisia glória foi, d'Africa espanto:
Oh como agora se publica nela,
Se a honestidade, se a beleza canto,
Marialva por ilustre simpatia
É de virtudes mar, e Alva do dia!

XIII

General das armas contra o sítio de Elvas

Quando vos elegeu supremo Aluno
(Elvas opressa) a Pátria vacilante,
Entre Soldado Capitão, vos uno,
O bastão nobre, a espada fulminante:
Quando rios de sangue vê Netuno,
Pareceu um purpúreo, outro arrogante,
De Lísia o Reino, do Oceano o espelho
Por Arábia Feliz, por Mar Vermelho.

XIV

Ao mesmo

Campou de Lísia a Flor por renascida,
Murchou a Flor de Ibéria por cortada;
Aquela está no campo esclarecida,
Esta fica no campo desmaiada,
A campanha parece florescida,
Sendo no duro Inverno maltratada:
Porque tinta em correntes sanguinosas
De cravos se vestiu, se ornou de rosas.

XV
Ostentando no sítio heroicamente,
Excessos de valor Cipião famoso,
Ulisséia ficou Roma potente,
O Tejo pareceu Tibre glorioso;
E com tantos aplausos excelente
Mostrastes por assombro generoso
Na sorte alegre, no valor impio
Modesto o coração, prudente o brio.

XVI

El-rei D. Afonso VI lhe dá o títilo de Marquês

Marquês vos honra o generoso Atlante,
Se do Céu não, da Lusitana terra,
Sexto Afonso, que em armas fulminante
Fez invicto o valor na justa guerra:
Não foi por desempenho, porque amante
Pagara o esforço, que esse braço encerra,
Se Afonso fora no valor profundo
Não Rei de um Reino, não; Senhor de um Mundo.

XVII

Passando ao Alantejo com segundo exército, no tempo em que era governador das armas D. Sancho Manuel

Depois seguramente conduzindo
Contra o Príncipe Austríaco insolente
Exército segundo, persuadindo
Com muda discrição, voz eloqüente:
Com a Deidade Estrimônia competindo,
Do Tejo abristes o cristal corrente;
Jacta-se já, pois logra em seu festejo
Se Netuno o Oceano, Marte o Tejo.

XVIII

Vitória do Cano, que hoje se chama de Ameixal

Na campanha do Ibero mal segura
Vosso nome altamente publicado,
Ambos vencestes a batalha dura,
Sancho guerreiro então, vós respeitado:
Com vosso nome a palma se assegura
Somente pelas vozes de afamado,
Quando Lísia aclamou glórias ufanas,
Sendo Sancho Aníbal, o Cano Canas.

XIX

Governador das armas do Partido do Alantejo. Vitória da praça de Valença

Outra vez com esforço verdadeiro
No Transtagano império obedecido,
Mostrastes na Província ânimo inteiro,
Quando dela tivestes o Partido:
Vitória Valente o peito foi, no ardor guerreiro,
Alcançando a vitória esclarecido,
(Valença o sabe) que em igual conceito
Valença a Praça foi, valente o peito.

XX

Vitória última de Montes Claros

Diga Lísia também a Palma nobre,
Última empresa, da Mavórcia História
Da fama devedora aplausos cobre
Quando a fama por vós alcança a glória;
O nome venturoso o sítio dobre
De Montes Claros na feliz vitória,
Que são da Parca, e Marte os golpes raros
Nos corpos Montes, nas façanhas Claros.

XXI

Princípio da batalha, em que os Castelhanos se imaginaram vencedores

Cedendo o peito à força sucessiva,
Sendo opresso do Ibero o Lusitano,
Retrocede, que a sorte compassiva
Quis dar um troféu breve ao Castelhano:
Nos bronzes logo o fero ardor se aviva,
E nos ferros se esgrime o brio ufano,
Armam-se os Lusos mais que duros cerros
Com bronzes bronzes, e com ferros ferros.

XXII

Alenta-se a batalha por parte dos Portugueses

Qual Deidade da Esfera luminosa
Entre vapores pérfidos, consente
Que um pouco ofusque a névoa tenebrosa
As lisonjas gentis da luz ardente:
Porém depois, os golpes da lustrosa
Vingança a névoa desmaiada sente,
Vibrando o Sol em férvido desmaio
Luz a luz, chama a chama, raio a raio.

XXIII

Alcança-se a vitória

Tal o luso valor, que Sol se apura,
Consente entre escondidos ardimentos
Que do Ibero conflito a névoa impura
Ofusque de seu brio os luzimentos:
Porém depois na bélica ventura
Castigando nublados pensamentos
Com luzidas façanhas, vibram logo
Bala a bala, aço a aço, fogo a fogo.

XIV

Posto no monte O Senhor Marquês

Vós posto na eminência agigantada,
Que rouba os raios do medroso Etonte,
Não já de louro vossa fronte ornada,
Ornada sim de estrelas vossa fronte:
Subis ao Céu na glória celebrada,
Sois assombro guerreiro do Horizonte,
Com que o monte por ũa, e outra parte
Fica Atlante do Céu, templo de Marte.

XV

Sua estância no campo em tempo de Inverno

Quando na Aula celeste visitava
O louro amante do Peneu Louro
Ao Troiano gentil, que a Jove dava
Do Néctar o licor em mesas d'ouro:
Entre o nevado horror, que o Céu vibrava
Pronto no campo, intrépido ao pelouro,
Repousáveis porém com braço feito,
Sendo a neve colchões, as armas leito.

XXVI

Sua estância no campo em tempo do Estio

Quando entre obstinações do ardor nocivo
Latindo nesse Pólo o Cão luzente,
Vomita em grave horror o fogo esquivo,
Abre na boca adusta o círio ardente:
Vosso peito também no esforço vivo
Fomentava os ardores de valente,
Ambos ardendo, um de outro satisfeito,
Na calma o círio, no valor o peito.

XXVII

Comparação com a Águia mais avantajado

Qual Águia ilustre, que do Sol os raios,
Sendo de altivas plumas adornada,
Sem maltratar-se à luz, sem ter desmaios,
Bebe constante, opõe-se remontada:
Águia Vós remontado em bélicos ensaios
Vendo raios de Marte na estacada,
Águia sois, e subis com mais instinto,
Ela ao Planeta quarto, vós ao quinto.

XXVIII

Comparação de Júpiter contra os Castelhanos

Se fulminais ousado, forte, e ledo
Contra Iberos Gigantes a pujança,
Oh que estrago! Oh que lástima! Oh que medo!
Quando a espada tratais, brandis a lança:
Mui cedo pelejais venceis mais cedo
O Transtagano ardor Flegra se alcança,
Vendo Iberos Gigantes, senão erro,
Por Júpiter a vós, por raio o ferro.

XXIX

Sua constância no bom, ou mal sucesso

Qual firme escolho, que no mar resiste
Ao cristalino impulso, que discorre,
Ou quando o mar com crespa fúria insiste,
Ou quando o mar com terso aljôfar corre:
Assim também quando a borrasca assiste,
Assim também quando a bonança ocorre,
Já do bem, já do mal; ao mesmo instante
Constante sois no bem, no mal constante.

XXX

Alusão de seu valor no tremor da terra, e das bandeiras

Se espedaçando escudo, arnês, e malha
Chovem globos em pólvora incendidos,
E se arvoram bandeiras na Batalha,
Os Castelhanos fortes já vencidos;
Não fazem globos, que Vulcano espalha, terra, e das
Não fazem ventos nos troféus movidos,
Faz somente o valor, que em vós se encerra,
As bandeiras tremer, tremer a terra.

XXXI

Comparação de sua espada

Qual ârion de estrelas matizado,
Para que com cristais ao Mundo ofenda,
Da procelosa espada nasce armado,
Luminosa no Céu, no mar tremenda:
Tal vós com vossa espada denodado
Fazeis de estragos tempestade horrenda,
Se bem com mais terror, que em glória nossa
Água esperdiça aquela, e sangue a vossa.

XXXII

Breve elogio de suas virtudes

Em vosso peito habitam finalmente
Todas as prendas do primor glorioso,
Se não sois mil Heróis, Conde excelente,
Sereis por vezes mil Herói famoso:
Lograis bélico ardil, voz eloqüente,
Prudente discrição, valor ditoso,
Severo agrado, sangue esclarecido,
Amado no temor, no amor temido.

XXXIII

Suas ações eternizadas, e seu retrato temido por elas

Sendo vós exemplar da humana glória,
Sendo do Luso Império forte amparo,
Para eterno papel de vessa história
Bronzes Corinto dê, mármores Paro:
Vós esculpido na fatal vitória,
Vós retratado no conflito raro;
Metam medo aos remotos, aos vizinhos,
Lenhos na imagem, no retrato linhos.

XXXIV

Sua fama do Oriente até o Poente

Cesse a Musa, senhor, retumbe a fama,
Destempere-se a Lira, entoe a Trompa,
Que quando o Plectro humilde vos aclama,
É bem que a tuba o Plectro me interrompa:
Se vosso esforço como Sol se afama,
Dos Gigantes a filha os ares rompa,
Donde se veste esse Planeta louro
Mantilhas de rubi, mortalhas de ouro.