Para que me recordas!

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Para que me recordas!
por José da Silva Maia Ferreira
Poema publicado em Espontaneidades da minha alma.


ao illm.º sr.


Francisco Joaquim da Costa e Silva.


On parle à son ami des chagrins de la terre....
M.me Emile de Girardin.


Já a noite bem alta
E a lua a fulgir —
Seus raios tão bellos
De meigo lusir
Nos vinham d’amores
Seus gôzos lembrar.
D’amores?
P’ra que me recordas
D’outrora o gozar?

Das flôres a flôr mais pura e mimosa
Já tive pendida em meu lindo rosal,
Sómente regado por Anjos dos Ceus —
No teu lindo solo — no teu Portugal!

Gosei a fragrancia qu’eu tanto aspirava
No calix mimoso — só nelle a brotar! —
Tu sabes que a flôr que eu tive na terra
Igual neste mundo não posso encontrar!

É rosa? — Oh! não — porque espinhos ervados
Não tinha essa flôr — d’agudo pungir —
Seu nome na terra não é conhecido —
Eu callo no peito o que eu só pude ouvir!

E sabes tambem que as furias do tempo
Em grosso tufão fizeram murchar
A flôr qu’eu mais qu’ria; — mas nunca a procella
Seu nome em meu peito pod’rá olvidar!

Oh! não — não mais falles,
Não queiras lembrar
Meus dias d’amores
Com ella a scismar! —
D’amores? —
P’ra que me recordas
D’outrora o gosar? —

Mas eis que se esconde
A lua que ha pouco
Se via a brilhar —
Seus raios tão bellos,
Seus bellos fulgôres
Se vão a finar: —
Oh! calla — não queiras —
Mais nada d’amores
Seus gosos lembrar!..