Pedro Ivo (Álvares de Azevedo)

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Pedro Ivo
por Álvares de Azevedo
Poema agrupado posteriormente e publicado em Obras de Manoel Antonio Alvares de Azevedo (1862).


PEDRO IVO


Perdoai-lhe, Senhor! elle era um bravo!
Fazia as faces descorar do escravo
Quando ao sol da batalha a fronte erguia,
E o corsel gottejante de suor
Entre sangue e cadaveres corria!
O genio das pelejas parecia...
       Perdoai-lhe, Senhor!

Onde mais vivo em peito mais valente
N′um coração mais livre o sangue ardente
Ao fervor desta America bulhava?
Era um leão sangrento que rugia:

Da guerra nos clarins se embriagava —
E vossa gente — pallida recuava —
       Quando elle apparecia!

Era filho do povo — o sangue ardente
Ás faces lhe assomava incandescente,
Quando scismava do Brasil na sina...
Hontem — era o estrangeiro que zombava,
Amanhã — era a lamina assassina,
No cadafalso a vil carnificina
       Que em sangue jubilava!

Era medonho o rubro pesadello!
Mas nas frontes venaes do genio o sello
Gravaria o anathema da historia!
Dos filhos da nação a rubra espada
No sangue impuro da facção ingloria
Lavaria dos livres na victoria
       A mancha profanada!

A fronte envolta em folhas de loureiro
Não a escondemos, não!... Era um guerreiro!
Despio por uma idéa a sua espada!
Alma cheia de fogo e mocidade,
Que ante a furia dos reis nào se acobarda,

Sonhava nesta geração bastarda
       Glorias.. e liberdade!

Tinha sêde de vida e de futuro;
Da liberdade ao sol curvou-se puro
E beijou-lhe a bandeira sublimada:
Amou-a como a Deos, e mais que a vida!
Perdão para essa fronte laureada!
Não lanceis á matilha ensanguentada
       A águia nunca vencida!

Perdoai-lhe, Senhor! Quando na historia
Vèdes os reis se coroar de gloria,
Não é quando no sangue os thronos lavão
E envoltos no seu manto prostituto
Olvidão-se das glorias que sonhavão!
Para esses — maldição! que o leito cavão
       Em lodaçal corrupto!

Nem sangue de Ratchffs o fogo apaga
Que as frontes populares embriaga,
Nem do heróe a cabeça decepada
Immunda, envolta em pó, no chão da praça,
Contrahida, amarella, ensanguentada,
Assusta a multidão que ardente brada
       E thronos despedaça!

O cadaver sem bençãos, insepulto,
Lançado aos corvos do hervaçal inculto,
A fronte varonil do fuzilado,
Ao somno imperial co′os labios frios
Podem passar no escarneo desbotado,
Ensanguentar-te a seda ao cortinado
       E rir-te aos calafrios!

Não escuteis essa facção impia
Que vos repete a sua rebeldia...
Como o verme no chão da tumba escura
Convulsa-se da treva no mysterio:
Como o vento do inferno em agua impura,
Com a bocca maldita vos murmura:
       «Morra! salvai o imperio!»

Sim, o imperio salvai; mas não com sangue!
Vède — a patria debruça o peito exangue
Onde essa turba corvejou, cevou-se!
Nas glorias, no passado elles cuspírão!
Vède — a patria ao Bretão ajoelhou-se,
Beijou-lhe os pés, no lodo mergulhou-se!
       Elles a prostituírão!

Malditos! do presente na ruma

Como torpe, despida Messalina,
Aos apertos infames do estrangeiro
Traficão dessa mài que os embalou!
Almas descridas do sonhar primeiro
Venderião o beijo derradeiro
       Da virgem que os amou!

Perdoai-lhe, Senhor! nunca vencido,
Se em ferros o lançárão foi trahido!
Como o Arabe além no seu deserto,
Como o cervo no páramo das relvas,
Ninguem os trilhos lhe seguira ao perto
       No murmurio das selvas!

Perdão! por vosso pai! que era valente,
Que se batia ao sol co′a face ardente,
Rei — e bravo tambem! e cavalleiro!
Que da espada na guerra a luz sabia
E ao troar dos canhões entumescia
       O peito de guerreiro!

Perdão, por vossa mãi! por vossa gloria!
Pelo vosso porvir e nossa historia!
Não mancheis vossos louros do futuro!
Nem lisongeiro incenso a nodoa exime!

— Lava-se o polluir de um leito impuro,
Lava-se a pallidez do vicio escuro;
       Mas não lava-se um crime!

Rio de Janeiro. Novembro de 1850