Poemas e Canções (Vicente de Carvalho, 1917)/Arrufos/II

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Ofendi-te...E depois, vejo-te humildemente
Chorar,
Turvo, turvo de pranto, esse resplandecente
Olhar.

Eis me vingado, pois, bem vingado, de quanto
Sofri.
Do teu suave amor,do meu suave encanto
Por ti.

Brutal, apunhalei-te a golpes de ironias
Brutais,
Eu, que te quero tanto, a ti, que me queiras
Demais.

Há pouco, para mim, doido eu de amor, tu doida
De amor,
Sorria em tua boca em flor tua'alma toda
Em flor;

Desfolhei esse teu lindo sorriso que era
Assim
-Mais ainda que em ti - como uma primavera
Em mim

E fiz todo esse mal que com algumas frases
Te fiz
Só porque te amo...Não; só porque tu me fazes
Feliz.

Fui comigo também, mais que contigo ainda,
Feroz:
Vendo-te assim chorar, tenho uma pena infinda
De nós:

Provoquei esse pranto humilde e resignado;
Depois,
Por fazer-te infeliz, sou o mais desgraçado
Dos dois.

Sorris?...Vais perdoar? Mas, ó tu que és tão boa,
O meu
Crime de te magoar, alguém o não pedoa:
Sou eu.