Poemas e Canções (Vicente de Carvalho, 1917)/Cantigas praianas/VII

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Tinha momentos amargos
Teu amor, que era tão doce...
Nem posso dizer que fosse
Tudo céu naquele céu:
Deu-me carinhos e zelos
Gosto e desgostos. Contudo
Tenho saudades de tudo,
De tudo que ele me deu.

Tu eras uma roseira.
Que eu topara no caminho...
Quem não perdoa um espinho
Pelos encantos da flor?
Depois... caprichos, arrufos,
Eram apenas o ensejo
De mais sabor em teu beijo
E mais viço em meu amor.

Temi esse amor tão grande,
Tão forte, tão exclusivo,
Que me tornava cativo
Dos teus caprichos sem lei:
Tentei do seio arrancá-Io...
Mas vejo, por minhas penas,
Que ele não foi, foi apenas
Meu coração que arranquei.

Certo venci com deixar-te
O encanto que me encantava
Quando eu tinha a vida escrava
Dos teus braços na prisão;
Mas... nesse mas se resume
Tudo que sinto e não digo
Hoje que sofro o castigo
De ter cedido à razão.

Perdido para o teu beijo,
Perdeu meu lábio o sorriso;
Pouco importa, que eu preciso
- Não sorrir, porém chorar;
Nem sei de bem pela terra
Que mereça algum empenho...
Olhos, porque os inda tenho
Se já te não hei de olhar?

Ai, como é triste o deserto
Do nosso leito vazio!
Como eu agora avalio
O que por gosto perdi!
Como são tristes as horas
Desde que já te não vejo,
E o meu amor sem teu beijo,
E a minha vida sem ti!