Poemas e Canções (Vicente de Carvalho, 1917)/Fantazias do luar

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
  • I


Entre nuvens esgarçadas
No céu pedrento flutua
A triste, a pálida lua
Das baladas.

Frouxo luar sugestivo
Contagia a natureza
Como de um ar de tristeza
Sem motivo.

Tem vagos tons de miragem,
De um desenho sem sentido,
Da paisagem.

A apagada fantasia
Do colorido - parece
De um pintor que padecesse
De miopia.

Tudo, tudo quanto existe,
Extravaga, e se afigura
Tomado de uma loucura
Mansa e triste.

O longo perfil do Monte
- Como um rio de água verde-
Corre ondulado, e se perde
No horizonte.

E sobre essa imaginária
Turva corrente, projeta
A alva igreja a sua seta
Solitária.

Assim, de um ermo barranco
A garça alonga no rio
O seu vulto, muito branco,
Muito esguio.

Sonha, imóvel... E acredito
Que de súbito desperte
Aquele fantasma inerte
De granito.

Dorme talvez... Qualquer cousa
No seu sono se disfarça
De asa encolhida de garça
Que repousa.

E eu cuido vê-la a cada hora,
Animar-se; e de repente
Subir sossegadamente
Céu afora...

  • II


Há um lirismo disperso
Nos ares... O próprio vento,
Esse bronco, esse praguento,
Fala em verso:

Voz forte, bruscas maneiras,
Pela boca pondo os bofes,
O vento improvisa estrofes
Condoreiras.

Beijam-se as frondes, arrulam,
Trocam afagos, promessas...
E as árvores secas, essas
Gesticulam.

Gesticulam, como espectros,
No vácuo, tentando abraços
Com seus descarnados braços
De dez metros.

Algum trovador de esquina
Canta a paixão que o devora;
E a sua voz geme, chora,
Desafina.

Ao longe um eco repete
O canto, frase por frase,
Em tom abrandado, quase
Sem falsete.

Tem o aspecto apalaçado
Da pedra cara e maciça
O muro, em simples caliça,
De um sobrado.

Nem castelã falta a esse
Castelo: na luz da lua,
Branca, airosa, seminua,
Resplandece.

Numa pose pitoresca
De romance ou de aquarela,
A burguesa que à janela
Goza a fresca.

  • III


O olhar, o ouvido, a alma inteira
Vê, ouve, acredita, sente
Quanto sonhe, quanto invente,
Quanto queira,

Quando, ó lua das baladas,
Forjas visões indistintas
Com esse aguado das tintas
Estragadas.