Polas praças de lixboa

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Polas praças de lixboa
por Fernão da Silveira, coudel-mor
Poema publicado em 1516 no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende.


O coudel moor as damas porque deram a hũa que casou a melhor peça que cada hũa tynha d'ajuda pera o casamento antre as quaes lhe derão o sexo de dona lucreçia.

Polas praças de lixboa
tantos louvores vos dam
que a maão nunca lhe doa
quem fez tall rrepartiçam.
Que no tall tempo de vodas
faça voda quem quiser,
mas por çerto ha mester
que aly lh'acudam todas.

E poys tambem acudistes,
louvor grande vos acuda,
qua sem sexo se concruda
todas vodas serem tristes.
Mas hum de nos cinco ou seis
esta questam fazer ousa,
que achastes hessa cousa
hu se rremetam nas leys.

Er'ele sobelo ancho,
ou tira mays de rredondo
ou tambem se lança gancho
cando esta sobre cachondo;
Ou se anda perfilado
como compre ha donzela,
ou s'estando arreganhado
se veraão dele palmela.
 
Se he per ventura calvo,
sse toca de cabeludo,
sse faz agoa a seu salvo,
sse myja coma ssesudo;
sse he famynto, se farto,
sse he pardo, se vermelho,
sse rrapa como coelho,
ss'arranha coma lagarto.

Se he manso, se brigoso,
sse lança, coucea, espora,
ou cand'estaa forioso
sse o quer dentro se fora.
Ou se por matar a sede
a traves toma mil saltos,
ou se lhe praz dos pes altos
arrymados haa parede.

Se tem rrysco no gargalo
do poço laa da fotea,
ou depoys que papa e cea
sse fica com bom rregalo;
Ou se tem crista de galo,
ou fala com boca chea,
ou apagando a candea,
que som faraa sem badalo.
 
S'ee de mole carnadura,
sse tem cabelo de rrato,
ou sobre vyanda dura
sse daa punhada ho gato;
Cando estaa de ssy contente
a quall parte mays s'emborca,
ou se cando bate o dente
faz bacorynho com porca.

Fym.

Quanta ssoma d'almazem
cabe laa em seu carcaxo,
ou que tempo se detem
em fazelo altibaxo.
Se he leesto marinheiro
em meter hũa moneta
ou se faz a çapateta
por sy e polo parçeyro.