Por Um Fio

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Por Um Fio
por Humberto de Campos
Conto publicado em Grãos de Mostarda


Heloísa Thompson Gomes era uma das encarnações mais encantadoras do Diabo. Pequenina, graciosa, cabelos de ouro finíssimo, possuía a boca do tamanho de uma cabeça de dedo polegar, e nesse pequeno cofre de pelúcia vermelha, umas pérolas miudinhas, roubadas de algum colar maravilhoso.

Caixa de um estabelecimento comercial na Rua Sete, tornara-se o principal atrativo da casa. Ao regressar do almoço, em uma pensão da Rua São José, trazia sempre seis, oito, quinze fregueses, na sua esteira, em verdadeira perseguição. E cada freguês era, na certa, uma gravata, um par de punhos, uma dúzia de lenços, que a casa vendia.

Certo dia, a Heloísa demorou mais, no almoço. Ao voltar, estava tão vermelha, que parecia congestionada. Quando quis abrir a "caixa", as mãos tremiam-lhe, como se acabasse de tomar um susto. De tal modo era, enfim, a sua transformação, que as companheiras, à saída, indagaram o motivo daquele nervosismo.

— Ah, meninas! — exclamou a rapariga, como quem deseja desafogar. — Bem se diz que a virtude da mulher está, sempre, por um fio! Agora é que eu compreendo.

— Tu?

— Eu, sim. Vocês não conhecem aquele tenentinho moreno, bonitinho, que vai sempre comprar gravatas na loja? Pois, bem; eu me deixei arrastar por ele, e fui, hoje, visitá-lo. Foi uma loucura. Felizmente ele é mais fraco do que qualquer uma de nós, o fio do meu colete deu nó, e ele não pôde, de modo nenhum, arrebentar!

E num estremeção brusco:

— A minha virtude esteve, hoje, por um fio!...