Pronunciamento à nação do Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (1 de janeiro de 2003)

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, após a cerimônia de posse Parlatório do Palácio do Planalto
por Luiz Inácio Lula da Silva


Pronunciamento à nação do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, após a cerimônia de posse

Parlatório do Palácio do Planalto, 01 de janeiro de 2003


Meus companheiros e minhas companheiras,

Excelentíssimos senhores chefes de Estado presentes nesta solenidade,

Trabalhadores e trabalhadoras do meu Brasil,

Meu querido companheiro José Alencar, meu vice-presidente da República,

Minha companheira querida, Dona Mariza, esposa do José Alencar,

Minha querida esposa Marisa que, juntos, já partilhamos muitas derrotas e, por isso, hoje, estamos realizando um sonho que não é só meu, mas um sonho do povo deste país, que queria mudança.

Eu tenho plena consciência das responsabilidades que estou, junto com os meus companheiros, assumindo neste momento histórico da nossa vida republicana.

Mas, ao mesmo tempo, tenho a certeza e a convicção de que nenhum momento difícil, nessa trajetória de quatro anos, irá impedir que eu faça as reformas que o povo brasileiro precisa que sejam feitas.

Em nenhum momento vacilarei em cumprir cada palavra que José Alencar e eu assumimos durante a campanha. Durante a campanha não fizemos nenhuma promessa absurda. O que nós dizíamos – e eu vou repetir agora – é que iremos recuperar a dignidade do povo brasileiro, recuperar a sua auto-estima e gastar cada centavo que tivermos que gastar, na perspectiva de melhorar as condições de vida de mulheres, homens e crianças que necessitam do Estado brasileiro.

Nós temos uma história construída junto com vocês. A nossa vitória não foi o resultado apenas de uma campanha que começou em junho deste ano e terminou no dia 27 de outubro. Antes de mim, companheiros e companheiras lutaram. Antes do PT, companheiros e companheiras morreram neste país, lutando para conquistar a democracia e a liberdade.

Eu apenas tive a graça de Deus de, num momento histórico, ser o portavoz dos anseios de milhões de brasileiros e brasileiras.

Eu estou convencido de que hoje não existe, no Brasil, nenhum brasileiro ou brasileira mais conhecedor da realidade e das dificuldades que vamos enfrentar. Mas, ao mesmo tempo, estou convencido e quero afirmar a vocês: não existe, na face da Terra, nenhum homem mais otimista do que eu estou, hoje, e posso afirmar que vamos ajudar este país.

Eu não sou o resultado de uma eleição. Eu sou o resultado de uma história. Eu estou concretizando o sonho de gerações e gerações que, antes de mim, tentaram e não conseguiram.

O meu papel, neste instante, com muita humildade, mas também com muita serenidade, é de dizer a vocês que eu vou fazer o que acredito que o Brasil precisa que seja feito nesses quatro anos. Cuidar da educação, da saúde, fazer a reforma agrária, cuidar da Previdência Social e acabar com a fome neste país são compromissos menos programáticos e mais compromissos morais e éticos, que eu quero assumir, aqui, nesta tribuna, na frente do povo, que é o único responsável pela minha vitória e pelo fato de eu estar aqui, hoje, tomando posse.

Como eu tenho uma agenda a ser cumprida, eu queria dizer a todos vocês: amanhã vai ser o meu primeiro dia de Governo e eu prometo a cada homem, a cada mulher, a cada criança e a cada jovem brasileiro que o meu Governo, o Presidente, o vice e os ministros trabalharão, se necessário, 24 horas por dia para que a gente cumpra aquilo que prometeu a vocês que iria cumprir.

Eu quero terminar agradecendo a esta companheira. Eu quero fazer uma homenagem porque hoje nós estamos aqui, Marisa muito bonita, toda elegante, ao lado do marido dela, com essa faixa com que nós sonhamos tanto tempo. Entretanto, para chegar aqui, nós perdemos quatro eleições: uma para governador e três para Presidente da República. E vocês sabem que a cultura política do Brasil é só homenagem aos vencedores. Quando a gente perde, ninguém dá um telefonema para a gente, para dizer: companheiro, a luta continua. Às vezes, ela e eu decidíamos que a luta ia continuar, porque não havia outra coisa a fazer a não ser continuar a luta para chegar onde nós chegamos.

Eu quero dizer a todos vocês que vieram de Roraima, do Acre, do Amapá, do Amazonas, de Rondônia, do Mato Grosso, do Mato Grosso do Sul, do Maranhão, do Piauí, do Ceará, do Rio Grande do Norte, da Paraíba, de Alagoas, de Pernambuco, de Sergipe, companheiros de Brasília, mas também companheiros da Bahia, de Minas Gerais, do Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Santa Catarina; quero dizer inclusive ao povo do Rio Grande do Sul, aos meus irmãos de Caetés, minha grande cidade natal, que se chamava Garanhuns, aos companheiros de Goiás: podem ter a certeza mais absoluta que um ser humano pode ter, quando eu não puder fazer uma coisa, eu não terei nenhuma dúvida de ser honesto com o povo e dizer que não sei fazer, que não posso fazer e que não há condições. Mas eu quero que vocês carreguem também a certeza de que eu, em nenhum momento da minha vida, faltarei com a verdade com vocês, que confiaram na minha pessoa para dirigir este país por quatro anos. Tratarei vocês com o mesmo respeito com que trato os meus filhos e os meus netos, que são as pessoas de quem a gente mais gosta.

E quero propor isso a vocês: amanhã, estaremos começando a primeira campanha contra a fome neste país. É o primeiro dia de combate à fome. E tenho fé em Deus que a gente vai garantir que todo brasileiro e brasileira possa, todo santo dia, tomar café, almoçar e jantar, porque isso não está escrito no meu programa. Isso está escrito na Constituição brasileira, está escrito na Bíblia e está escrito na Declaração Universal dos Direitos Humanos.

E isso nós vamos fazer juntos.

Por isso, meus companheiros e companheiras, um abraço especial aos companheiros e companheiras portadores de deficiência física que estão sentados na frente deste parlatório. Meus agradecimentos à imprensa, que tanto perturbou a minha tranqüilidade nessa campanha e nesses dois meses, mas sem a qual a gente não iria consolidar a democracia no país. Meu abraço aos deputados, aos senadores. Meu abraço aos convidados estrangeiros. Digo a vocês que, com muita humildade, eu não vacilarei em pedir a cada um de vocês: me ajude a governar, porque a responsabilidade não é apenas minha, é nossa, do povo brasileiro, que me colocou aqui.

Muito obrigado, meus companheiros, e até amanhã.