Queixumes (Casimiro de Abreu)

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Queixumes
por Casimiro de Abreu
Poema publicado em As Primaveras


Olho e vejo... tudo é gala,
Tudo canta e tudo fala,
Só minh'alma
Não se acalma,
Muda e triste não se ri!
Minha mente já delira,
E meu peito só suspira
Por ti! Por ti!

Ai! quem me dera essa vida
Tão bela e doce vivida
Nos meus lares
Sem pesares
No sossego só dali!
Não tinha-te visto as tranças,
Nem rasgado as esperanças
Por ti! Por ti!

Perdi as flores da idade,
E na flor da mocidade
É meu canto
- Todo pranto -
Qual a voz da juriti!
No teu sorriso embebido
Deixei meu sonho querido
Por ti! Por ti!

Ai! se eu pudesse, formosa,
Roçar-te os lábios de rosa
Como às flores
- Seus amores -
Faz o louco colibri;
Esta minh'alma nos hinos
Erguera cantos divinos
Por ti! Por ti!

Ai! assim viver não posso!
Morrerei, meu Deus, bem moço,
- Qual n'aurora
Que descora,
Desfolhado bogari;
Mas lá da campa na beira
Será a voz derradeira
Por ti! Por ti!

Ai! não m'esqueças já morto!
À minh'alma dá conforto,
Diz na lousa:
- "Ele repousa,
"Coitado! descansa aqui!" -
Ai! não t'esqueças, senhora,
Da flor pendida n'aurora
Por ti! Por ti!...

Junho - 1858.