Revelação de um sonho

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Revelação de um sonho
por José da Silva Maia Ferreira
Poema publicado em Espontaneidades da minha alma.


Vem-nos na vida o prazer,
Para a dôr nos mais pungir,
Sóbe o mortal p’ra cahir,
Gosa para mais soffrer.

A. F. S. Campos e Mello.


«Sangue! Sangue! — Do inferno horriveis scenas,
«Desviáe-m’as, oh! meu Deus, por piedade!»
— Era este o bradar d’um desgraçado,
Que após tremendo sonho, espavorido,
Tremulo de terror, julgava ainda,
Com ervado punhal, por mão iniqua,
O halito da morte estar sorvendo!

Sonhava sobre a face jaspeada
De candida donzella adormecida,
Sem que rubra de pejo ella corásse,
Nem dos labios o frémito podesse
Attenta ouvir, um casto e doce beijo,
De puro amôr nascido, ter impresso.
— Tambem sonhava já estar cingido
Por laço de marfim ao niveo colo
Dessa Virgem, que pura, brando arfava
Dulcissimos anhelos não scismados
No embate desta vida attribulada!


Sonhava vêl-a
Qual linda rosa,
Sempre viçosa,
E sempre bella.

Tão casta e pura,
Como revella
Brilhante estrella
Em noite escura.

Tão carinhosa
Como a ternura,
Na desventura,
De Mãe piedosa.

Desse extasis de amôr a si voltava,
Quando por ferrea mão ao chão prostrado,
Com força viu um ferro, traspassar-lhe,
D’aguda ponta, o adyto do peito,
E com voz de trovão ingente espectro,
Morre! — Perfido! Morre!» — assim bradar-lhe.
«— Tambem sonhava em noite umbrosa e feia,
Em longiquo sanctuario a horas mortas,
Onde languida luz vertendo apenas
De baça lampada luctuosas sombras,
Junto a aras sagradas soluçando
Pudibunda donzella, qu’ajoelhada
De amôr juras solemnes repetia:
E quando a dextra sua em laço eterno

Á delle, venerando Sacerdote,
Ante o Deus Redemptor p’ra sempre unia,
D’improviso no Templo as naves todas,
A arcada, e o chão forte tremeram:
E da lampada a luz, que vacilante
Seu arranco de morte já exhalava,
De trevas innundando o desposorio,
Eis subito se mostra o mesmo espectro
D’hedionda catadura e ferro alçado,
Brandindo-o, e sopesando-o até craval-o
No peito do esposo desgraçado,
Qu’envolto em sangue aos seus pés lhe roja
De amôr surdo gemido só dizendo
E o nome de — Carlinda! — repetindo.
— Gargalhada infernal então crepita
Dos chammejantes labios do assassino,
Cujos échos ao longe retumbando
Do flagicio dispertam o sonhador.

Oh! que dôr angustiada,
Lacerada,
Em seu peito s’infiltrou,
Que se Deus lhe não valera,
Suppozera
Que no sonho se finou.

Mago sopro do Senhor,
Nesta dôr,
Santa reza lhe inspirou,

Que rezando-a piedoso,
Venturoso
Logo — logo melhorou.

E esta reza que do peito,
Satisfeito
Murmurando revelava,
Era reza contristada
E ensinada
Por seu bem que tanto amava.

Era trova mui saudosa,
Fervorosa,
Gravada em letras d’oiro,
Que pudibunda donzella
Pura e bella
Lhe offertou como thesoiro.

E o thesoiro era prenda,
Com legenda,
Neste sonho revelada,
Era trova virginal,
Sem igual
Por seu amôr inspirada.

«Ó Deus de minh’alma,
«Ó doce candor,
«Dos justos a palma,
«Do mundo Senhor,

«Uni o meu fado,
«Já tão desgraçado,
«Ao fado scismado
«Do meu Trovador!»


Rio de Janeiro. — 18 de Janeiro de 1849.