Ritos

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa

A luz lirial da Lua abre tu’alma, artista, como um solar antigo.

Sob a neve luminosa do grande astro noctâmbulo, as visões que um dia amaste aparecerão agora.

Ah! A tu’alma é um antigo solar, onde mulheres prodigiosas, enfloradas de beleza, peles finas, transparentes, de delicadeza de porcelana, passaram.

És um solar antigo...

Tens o ar enevoado do crepúsculo de melancolia que há nos velhos solares.

Alguma coisa de nostálgico, de evocativo, como vagos sons plangentes, à noite, ou à hora do Ângelus, na solidão dos campos levanta e acorda a tu’alma.

Teu coração é o Sagrado Viático, mais puro e branco que as claras hóstias.

De que fundo de civilização, de que ramo de raça, de que região viestes assim, numa original sensação de nervos, palpitante, convulso como o mar e como o mar sereno e também como o mar profundo e grande?!

Pelas tuas idéias, pelos teus olhos fatigados de ver e perceber de perto o incoercível mundo, passam as alegrias, as lágrimas, o intenso viver de muitas gerações.

Tu representas bem todas elas, és a essência espiritual de infinitas camadas humanas, o luminoso requinte dessas gerações que findaram e que não foram mais do que simples moléculas para formar o teu estranho, poderoso organismo de artista.

Sofreram, gozaram e pensaram - para que tu sobre elas fizesses nascer, surgir o mundo virgem das tuas impressões e idéias. E é por isso, artista, que abres tu’alma, como um solar antigo, à luz lirial da Lua - apaixonada sultana que vaga à noite, que vigia e vela pela Religiões incomparáveis do Pensamento, seguida do fulgurante cortejo das estrelas odaliscas...