Sangue limpo (1863)/Prefacio

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Sangue limpo por Paulo Eiró
Prefacio


AO


EXM. SR. DR. ANTONIO JOAQUIM RIBAS

OFFERECE




O Autor

Seja-me permittido escrever algumas linhas preliminares, não em favor da obra, pois como disse Madame de Stael, « um livro de- fende-se a si mesmo », nem para expender difficuldades insepara- veis de um ensaio em genero tão escabroso de litteratura, mas para manifestar o pensamento capital que presidio á confecção d'este drama.

Em principios do anno de 1859, o Conservatorio Dramatico Pau- listano, tentando pôr em pratica uma idéa cheia de patriotismo, abrio um concurso litterario, destinando premios para o melhor drama original, revestido de moralidade, que tivesse por assumpto algum dos gloriosos episodios da historia de nossos pais. Apezar de minha fraqueza e obscuridade, propuz-me a entrar na liça, satis- feito de antemão com a idéa de ser vencido por engenhos nasci- dos no mesmo berço. Lançando um ligeiro olhar sobre o nosso passado, descubri sem grande custo o assumpto que desejava. E' com razão que Charles Ribeyrolles disse que a nossa historia tinha uma pagina, a da Independencia ; e eu já pensava assim antes do ta- lentoso proscripto francez. Sim, é do Ypiranga que data a nossa vida real ; nunca se poderá chamar dia ao espaço que precede a aurora. Este assumpto porém, tão bello e tão nacional, traz com- sigo graves inconvenientes. O Illustrissimo Senhor Doutor Paulo Antonio do Valle ennumerou-os todos em uma carta, publicada por esse mesmo tempo, e assignalou os perigos a que se expunha o escriptor incauto que ousasse apresentar na scena os vultos veneraveis e ainda palpitantes dos Andradas e do primeiro imperador. Concordando plenamente com a opinião desse illustrado Paulista, auctoridade em semelhantes materias, pareceu-me entretanto que a pintura fiel da épocha, afas- tadas as personagens principaes, teria ainda encanto bastante para prender os espectadores.

Achada a moldura, faltava delinear o quadro.

Todos sabem de que elementos heterogeneos se compõe a população brasileira, e os riscos imminentes que presagia essa falta de uni- dade. Não é sómente a differença do homem livre para o escravo ; são as tres raças humanas que crescem no mesmo solo, simultanea- mente e quasi sem se confundirem ; são tres columnas symbolicas que, hão de reunir-se, formando uma pyramide eterna, ou tom- barão esmagando os operarios ! Penso eu (e este pensamento pare- ce-me digno de ser a divisa de todos aquelles que trabalham no magnifico edificio da arte nacional), penso eu que o presente deve ser preparador do futuro ; e que é dever de quantos teem poder e intelligencia, qualquer que seja a sua vocação e o seu posto, do poeta tanto como do estadista, apagar essas raias odiosas, e comba- ter os preconceitos iniquos que se oppoem á emancipação completa de todos os individuos nascidos nesta nobre terra. Essa grande re- volução, infallivel porque é logica, triumphante porque é santa, não ha de ser contemplada pelos mais mancebos de hoje ; restar-nos-ha porém a gloria de haver-lhe aplainado o caminho.

Não será dramatico desenrolar a velha bandeira do Ypiranga, e nella apontar como antithese monstruosa a nódoa negra da escra- vidão, verme nojoso que róe a flôr de nossas liberdades ? Não será dramatico mostrar o que fizeram nossos pais, e o que nós temos a fazer para coroar sua obra ?

Foi possuido desta idéa que eu utilizei os bellos dias de Janeiro do anno passado, escrevendo o drama–SANGUE LIMPO. Encetando uma empreza que me parece de alta moralidade, e que outros comple- tarão mais efficazmente, aggredi as preoccupações que existem contra os homens de côr. Bem sei que a execução não está á par da idéa ; balbuciei uma lingua nova para mim, e o meu enthusiasmo juve- nil extravasou por vezes dos moldes frios e inflexiveis do drama moderno. Julgo porém haver attingido o meu fim. Só ao genio é dado começar pelo irreprehensivel.

Poetas, artistas, cultivadores do bello, semeadores incognitos do futuro, não esmoreçamos. Esta épocha vai rica de materialismo, de descrença e de ignominias politicas : mas um dia erguer-se-ha o sudario gelado desta nova Pompeia; e do cadaver só subsistirá o cràneo, séde da intelligencia !


1.º de Setembro de 1862.