Saudades de um esposo amante pela perda de sua amada esposa

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Saudades de um esposo amante pela perda de sua amada esposa
por Manuel Botelho de Oliveira


I
Agora que altamente
Me lastima o rigor, me assalta a pena,
Agora que eloqüente
Fala o silêncio quando a voz condena,
Agora pois quando meu Bem me deixa,
Corra o pranto, obre a mágoa, suba a queixa.

II
Qual flor em flor cortada
Te murchaste meu Bem (ah morte feia!)
Oh como desmaiada
A florida república se afeia,
Pois perdeu toda a flor na morte dura,
O âmbar leve, a grã bela, a neve pura!

III
O sol já retirado
Menos formoso, menos claro o vejo,
Pois eras seu cuidado;
Eras do lindo Sol seu vão desejo,
Sendo sim seus ardentes resplandores
Não ardores de luz, de amor ardores.

IV
Oh como pede à sombra
Que o resplandor lhe embargue, a luz lhe furte!
E se na dor se assombra,
Pede à noite também que o dia encurte,
Pois perdeu tristemente na alegria
Melhor luz, melhor Alva, e melhor Dia.

V
Belíssima senhora,
Que choro ausente, que venero amante,
Na Pátria vencedora
De ũa morte cruel te vês triunfante;
E por que venças tudo, em igual sorte
Venceste os corações, venceste a morte.

VI
Entre mil saudades
Morta te estimo, e te desejo viva:
Mas ah que em mil idades
Se frustra o rogo, a lástima se aviva,
Tendo em dobrado mal, que ao peito corta.
Vivo o desejo, a esperança morta!

VII
Quando te considero
Algum tempo em meus braços (ai que mágoa!)
Logo este golpe fero
O que logro em ardor, me solta em água,
Competindo entre si por desafogo
Nos olhos a água, e no peito o fogo.

VIII
Se vives retratada
Neste meu coração, que te ama ausente,
Fica a dor mitigada
Neste enganoso bem, por aparente;
Mas ai que fica, quando a dor me aperta,
Falsa a consolação, a mágoa certa!

IX
Lá no Empíreo gloriosa
Lembra-te deste amor, que tanto apuro:
Que esta pena amorosa
Solicito constante, fino aturo;
E impressa na alma minha pena interna,
Fica imortal o amor, a mágoa eterna.

X
Deixaste-me uma prenda
Para alívio feliz da mágoa crua,
Que, quando te eu pretenda,
Lograsse meu desejo cópia tua:
Mas ai que é maior mal, pois nas memórias
Saudades sinto, quando finjo glórias!
Canção, depõe o plectro,
Que já me impede o pranto
Que altere a voz, e que prossiga o canto.