Senhora, por vos lembrar

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Senhora, por vos lembrar
por João de Meneses
Poema publicado em 1516 no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende.


De dom joam de meneses a sua dama e hũa partida, sendo moço.

Senhora, por vos lembrar
a tristeza qu'em mym cabe
e tambem por vos gabar,
quys aquisto começar,
mas nam sey como vos gabe.
Ca vos vejo sem vos ver
tam fermosa qu'ee danar-vos
louvar vosso mereçer,
nem sey cousa que dizer
que nom seja desgabar-vos.

Vejo-vos, minha senhora,
naçida sem par no mundo,
vejo a mym que mylhor fora
ca me ver sem vos agora,
ter-m'a terra ja de fundo.
Vejo-me por vos penado,
vejo deos por vos fazer
ser de todos mays louvado
que por ser cruçeficado
nem por seu gram padeçer.

Vy a mym fazer partyda
com qu'espera de partyr
deste mundo minha vyda,
porque nysto soo dovyda
de vos mais ver nem servir.
Dovyda e eu dovydo,
poys desta ey de morrer,
nem quero que possa ser,
vendo-me de vos partido,
ter vida nem mais viver.

Que bem sey que m'ee sobejo
viver eu, e isto diguo,
porque se cumpro o desejo
vosso, meu, segundo vejo
que folgays pouco comygo.
E se t'aquy desejava
de ter vida ou a queria,
hera soo porque vos vya
e por vos ver comportava
quanto mal m'ela fazya.

Ms agora a saudade
de vossa gram fremosura,
sem nenhũa piadade,
faz mudar mynha vontade
por fym de minha tristura.
E faz-me qu'ey por sobeja
vyda tam sem esperança
e o qu'a vyda deseja
he estar honde vos veja
ou morrer sem mais tardança.

E por isto se comprir,
minha vida e meu viver
querem morte consentir
e eu soo por vos servir
nam me pesa de morrer.
Que bem sey que folgareis,
como de feyto folgais,
e bem sey que al nom quereis
e tambem que morrereis
se me çedo nom matays.

Polo qual sem esperar
de vos ver mays em meus dyas
como quem se ve matar,
dixo isto por lembrar
que me nam chegou mançyas.
Em amar nem em querer,
conquanto teve grã fama,
sem se nunca desdizer.
e depois triste morrer
por amor de sua dama.

Por ser de vos apartado
me vejo neste periguo,
e por ser tam namorado,
triste, mal-aventurado,
vejo a morte ja comygo.
Sem vos ver, porque vos vy,
vejo morto meu viver,
e tambem, porque party,
he a pena que senty
tal que nom na sey dizer.

Vejo a morte ja vyr perto
soo porque de mym catyvo
he meu mal trist'encuberto
tamanho que ey por çerto
que sam morto sendo vivo.
Chora-la triste começo,
que bem vejo que me cata,
de viver mais me despreço,
aos que erey perdam peeço
e perdoo a quem me mata.

Mata-me querer-vos bem,
sam morto por vos amar,
matais-me vos, que nynguem,
qu'eu sayba, poder nom tem
senam vos de me matar.
Mata-me nom conheçerdes
camanho bem vos eu quero,
e as vezes nam me crerdes,
nem vos dar de me perderdes
me faz tal que desespero.

E se disto dovidays
sem vos eu errar em nada,
senhora, vos hys errada
e vos mesma me matais,
e soes nysto açaz culpada.
Mas na ora qu'eu morrer,
onde for naquele dya,
de laa vos farey saber
que perdes em me perder
quem vos grande bem querya.

E sabeys como perdido
perderdes-me pode ser
morrer eu sendo partido,
ca sem isso he ja sabydo
que me nam podeys perder.
Mas por vos serdes servyda,
se o nysto soes, senhora,
cuydarey nesta partida,
porque assy na minha vyda
darey fim loguo nes'ora.

E se deste mal que syguo,
acho alguem que me conforte,
he este tal sabeys que digo
que quem for mais meu amiguo
folgue mais com minha morte.
E, senhora, por fazer-vos
a vontade no que posso,
perco a vyda por querer-vos,
sem lembrar-vos nem doer-vos
qu'ee perdida polo vosso.

Polo vosso sem contenda,
como vedes, he perdida,
ouve aquisto por emmenda,
porem nam que m'arrependa
de vos ter tam bem servida.
Na vontade; que nas obras
foram poucas como vistes,
e meu mal, que nom sentistes,
fez que fyz aquestas cobras,
dando myl sospyros tristes.

Fym.

Soes em cabo perigosa,
soes tambem crua sem par,
soes tambem sempre fermosa,
nam soes nada piadosa
pera quem podeys matar.
E eu sam tam namorado,
tam perdido e sem conforto,
d'omores tam deçepado
que vos he muy mal contado
matar-me, pois que sam morto.