Seráfica

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Seráfica
por Cruz e Sousa
Poema publicado em Evocações.

Como as illuminuras dos Missaes, que resaltam de marfins eburneos, era infinitamente seraphica, da beatitude angélica dos cherubins, aquella pallida mulher juncal, de um moreno triste e contemplativo de magnolia crestada.

Seus grandes olhos negros, profundos e velludosos, de finissimos cilios rendilhados, raiados de uma expressão judaica, tornavam ainda maior o relêvo do pallôr esmaiado do rosto melancólico, que a singular formosura brandamente illuminava de claridade velada...

As linhas harmoniosas do seu busto sereno, perfeito, davam-lhe encanto vago, aéreo, siderações egrégias, prefulgencias de Archanjo.

Pairavam nessa mulher jalde-esmaiado, que na luz loura do sol tinha toques d'ouro, suavidades de canticos sacros, caricias de aves, e rhythmos preciosos de cytharas e harpas finamente vibradas travez a sonoridade clara das languidas aguas do Mar. Altiva e alta, com o sentimento frio do marmore das Imagens amarguradas, fluiam-lhe da voz, quando raramente fallava, scysmativas dolencias, fundas nostalgias ennevoadas...

Mas, muda, na mudez das religiosas claus- traes, ficava então de uma belleza divinal e secréta, da excelsa resplandescencia sagrada dos Hostiarios.

E, quando erguia os cilios densos e setinosos e o clarão dos olhos brilhava, como que se evaporisavam d'elles chammas e musicas paradisiacas, uma espiritualisação a glorificava, effluvios de arôma, a leve irisação da graça.

Dominadôra, triumphal, na auréola do esplendor que a circumdava, parecia reinar n'um altar ethéreo, por entre os finos astros immortaes.

Fazia crêr que todos os sentimentos affectivos purificados, que todas as emanações originaes da terra, correriam, perpetuamente, em cortejos reverentes, a vêl-a passar, a beijal-a na epiderme de cêra, a veneral-a, emfim, com esse amor ideal, indelével, eterno, da natureza abstracta...

O perfume e a radiação da sua cabeça magestosa, astral, não fascinavam, não attrahiam apenas, mas idealisavam sempre — como se a Seraphica fosse a Apparição symbólica, surgindo de um fundo livido de lua, uma Santa Theresa, bella e ascética nos silicios da religião do Amor, amortalhada na castidade das açucenas e lyrios ..

A alma dos Estheticos, dos curiosos Emocionados, se deslumbrava em extasis de occasos ao vêr-lhe a aristocrática esveltez monjal, os grandes olhos negros e magoados, de belleza deifica, os ondeados cabellos tenebrosos e a bocca purpurejante, anhelante, lethargica, ligeiramente golpeada de um travôr enervante de volúpia dolo- rosa...

Os seios deliciosos e tépidos, origem branca e bella da graça e do desejo, eram duas raras rosas intemeratas, cujo aroma exquisito e vivo meigamente deixava um fino encanto e uma suave fascinação no ar...

Virgem ainda, com todo o impolluto verdôr do seu corpo mysterioso, fechada nos recatos ingénitos do pudor, a Morte, afinal, veio entoar o Canto Nupcial de Seraphica, o seu Epithalamio...

E ella, no thálamo da Morte, nessa mystica melancolia de outr'ora, que a velava, e n'aquelle esmaiado pallôr, lembrava, aos entendimentos delicados, aos solemnes e reclusos prophétas da Grande Arte, ter emmudecido glacialmente para sempre, sem os impundonorósos, profanadôres contactos, de uma exótica e asiática doença...