Serenata (Antero de Quental)

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Serenata (Antero de Quental)
por Antero de Quental
Poema publicado em Raios de Raios de Extincta Luz.


D'esta poesia escreveu o auctor ao sr. dr. Wilhelm Storck, em carta por este communicada a J. de Araujo: «A... Serenata nunca foi impressa que eu saiba, embora não seja de modo algum inédita, pois tendo sido composta ha 4 annos, na Ilha de S. Miguel, a pedido de um grupo de rapazes, que ali formaram uma sociedade cantante, é lá muito conhecida e cantada por esses e outros nos seus passeios musicaes em bellas noites de verão.»

Storck traduziu esta poesia. Ácerca da traducção escrevia-lhe D. Carolina Michaëlis, em maio de 1891: «A. de Q. recebeu a sua
traducção da Serenata, a qual lhe agrada extraordinariamente. Antepõe-na ao original d'elle, e diz que lhe sôa como uma canção
allemã.»

Cahiu do céo uma estrella,
Ai, que eu bem a vi tombar!
Era a noite pura e bella,
Murmurava ao longe o mar...

Era tudo extase e calma,
Perfume, encanto, fulgor...
Só no fundo da minha alma
Que desconforto e que dôr!

Dorme e sonha, minha bella,
Emballada ao som do mar...
Cahiu do céo uma estrella,
Triste do que a viu tombar!

Era uma estrella cahida,
Uma entre tantas, não mais!
Era uma illusão perdida,
Era um ai entre mil ais!

E has de viver torturado,
Louco, incerto coração,
Só por um astro apagado,
Por uma morta illusão?

Dorme e sonha, minha bella...
Como chora ao longe o mar!
Cahiu do céo uma estrella,
Ai de mim que a vi tombar!

1873.