Sermão da Dominga XIX depois do Pentecoste

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Sermão da Dominga XIX depois do Pentecoste
por Padre Antônio Vieira
Sermão de 1639. Versão em áudio disponível e dividida em duas partes.
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Misit servos suos vocare invitatos nuptias[1]

I

É semelhante o reino do céu a um homem rei. — Vou repetindo e construindo o texto do Evangelho, palavra por palavra. Tende advertência e fazei memória de todas, porque têm mistério, e todas nos hão de servir. — É semelhante o reino do céu — diz Cristo, Redentor nosso — a um homem rei, o qual fez as bodas a seu filho. Chegado o dia, mandou a seus criados que fossem chamar os convidados para o banquete, e eles não quiseram vir. Tornou, contudo, a mandar outros criados com outro recado nesta forma: — Dizei-lhes que venham, porque o banquete está aparelhado e o gasto feito, as reses e as aves mortas, e tudo preparado. — Os convidados, porém, não fizeram caso desta segunda instância: uns se foram para a sua lavoura, outros para a sua negociação, e alguns houve tão descomedidos, que prenderam os mesmos criados, e, depois de muitas afrontas, os mataram. Irou-se o rei, como era justo, mandou os seus exércitos a que fossem castigar aqueles rebeldes, com ordem que não só matassem os homicidas, mas pusessem fogo a toda a cidade, e a queimassem. Executado assim, voltou-se o rei para os criados e disse: — O banquete está aparelhado; e pois os convidados não foram dignos, ide às saídas das ruas, e trazei quantos achardes. — Foram, e ajuntando quantos encontraram, maus e bons, todos trouxeram e introduziram, com que os lugares do convite ficaram cheios. Então o rei entrou em pessoa na sala para os ver à mesa, e como notasse que entre eles estava um sem vestidura de bodas, estranhou-lhe a descortesia, dizendo: Amigo, como entraste aqui tão indecentemente vestido? — O homem emudeceu, e o rei mandou a seus ministros que, atado de pés e mãos, o lançassem fora e o levassem a um cárcere subterrâneo e escuro, chamado trevas exteriores. Ali não haverá — conclui Cristo — senão choro e ranger de dentes, porque os chamados são muitos, e os escolhidos poucos.

Esta é, letra por letra, a história ou parábola do Evangelho, para cuja inteligência convém saber quem é o rei, quem o filho, quais as bodas, qual o banquete, quem os convidados que vieram, quem os que não quiseram vir, e quem os criados que os foram chamar. O rei é o Eterno Padre; o filho é o Verbo, segunda Pessoa da Santíssima Trindade; as bodas são a Encarnação do mesmo Filho de Deus, que se desposou com a natureza humana; o banquete é a glória e bem-aventurança do céu, que por meio deste mistério se nos franqueou; os convidados que vieram são os que se salvam; os que não quiseram vir, os que se condenam; e os criados, finalmente que os chamaram são os pregadores. Suposto pois que este é o ofício e esta a obrigação do pregador, esta será também hoje a matéria do sermão. Misit servos suos vocare ad nuptias (Mt. 22,3). Manda-me Deus, senhores, que vos chame para o banquete da glória, e assim o farei. Mas quando vejo nesta mesma parábola que, chamados uma e outra vez os convidados, não quiseram vir, que razões vos posso eu alegar, ou de que meios me posso valer para vos persuadir o que tantos pregadores e escolhidos por Deus não persuadiram? Toda a minha confiança trago posta na virtude e eficácia do Evangelho; e assim vos não direi outra coisa, senão o que ele diz, e já ouvistes. Ponderarei somente as suas palavras, e ponderá-las-ei todas, sem deixar nenhuma, e para quanto disser e provar não alegarei outra escritura, nem do Velho nem do Novo Testamento, mais que o mesmo Evangelho. Se vos parece assunto novo e dificultoso, por isso mesmo me deveis ajudar a pedir mais graça hoje, que noutras ocasiões. Ave Maria.

II

Misit servos suos vocare invitatos ad nuptias. Chamar os convidados para o banquete da glória é assunto que tomei ou me mandou tomar o Evangelho. E não sendo este banquete senão o do Santíssimo Sacramento, o que com repetida memória de todos os meses celebra hoje a vossa piedade, para que me deis atenção, sem desgosto nem escrúpulo, sabei que o mesmo Evangelho vos há de livrar dele, e com propriedade e mistério até agora não ouvido, nem de vós esperado.

Entrando, pois, na parábola que referi, a primeira coisa que ela supõe para fundamento do muito que encerra e nos há de ensinar, é que todos os que estamos presentes somos convidados para o banquete da glória. Para prova desta suposição, diz o texto que, chegado o dia das bodas, mandou o rei alguns dos seus criados que fossem chamar os convidados para o banquete: Misit servos suos vocare invitatos ad nuptias (Mt. 22,3). E como estes não quisessem vir, em vez de se mostrar ofendido como homem e como rei: Homini regi, para mostrar que debaixo desta metáfora era Deus, tornou a mandá-los chamar, não pelos mesmos, senão por outros criados: Misit alios servos. Quem fossem estes criados, assim os primeiros como os segundos, declaram com excelente propriedade Orígenes, S. Jerônimo e Santo Tomás. Os primeiros dizem que foram os profetas, os segundos os apóstolos. Os profetas foram os primeiros, porque primeiro chamaram os convidados na lei escrita; e os apóstolos foram os segundos, porque, vindo depois dos profetas, também chamaram os convidados na lei da graça. Daqui se segue, com a mesma propriedade, que os convidados para o banquete da glória, antes de virem os apóstolos e os profetas, já estavam convidados. Antes dos profetas já estavam convidados, porque dos primeiros criados diz o texto: Misit servos suos vocare invitatos; e antes dos apóstolos também estavam convidados, porque aos segundos criados disse o rei: Dicite invitatis. Pois, se já estavam convidados antes de haver apóstolos nem profetas, e nem os apóstolos nem os profetas foram os que os convidaram, senão os que somente os chamaram, quem os convidou? Não há dúvida que quem os convidou foi o mesmo rei, pai do príncipe desposado, que é Deus. Mas quando? Alguns dizem que foram convidados ab aeterno, quando Deus predestinou os homens para a glória. Mas isto não pode ser, porque convidar e ser convidado supõe notícia recíproca, e os homens não podiam ser convidados quando ainda não eram destinados ou predestinados. Logo, se antes dos apóstolos e dos profetas já estavam convidados, quando os convidou Deus? Convidou-os em Adão, quando lhe revelou que não só o criara a ele e a todos seus descendentes para o paraíso da terra nesta vida, senão para a glória do céu na outra. Nem a verdade, ordem e conseqüência da parábola se pode concordar doutro modo com a verdadeira teologia. Em suma, que desde o princípio do mundo e desde Adão, assim como depois todos pecamos nele, assim todos somos convidados nele para o banquete da glória, porque o fim, para que todos nascemos e somos criados, é para servir a Deus na vida, e o gozarmos na eternidade.

Suposta esta primeira verdade tão manifesta no nosso Evangelho, e suposto também que os sucessores dos apóstolos e profetas, que foram chamar os convidados, são os pregadores, o que a mim me toca hoje — como dizia — é chamar-vos também para o banquete, e persuadir-vos que vos não escuseis ou condeneis em o não querer aceitar. Mas, se o banquete é da glória, que posso eu dizer da grandeza, da magnificência e do sumo gosto e gostos que Deus tem aparelhado nela para os que forem dignos de a gozar? Dos profetas e apóstolos que chamaram os convidados para o banquete da glória, só dois a viram. Um a viu de longe, estando na terra, que foi Isaías; e outro a viu de perto, sendo levado ao céu, que foi S. Paulo. E que é o que disseram um e outro do que lá viram? O que disseram ambos conformemente é que se não pode dizer, porque os bens e felicidades daquela pátria bem-aventurada são tão diversos destes nossos, a que falsamente damos o mesmo nome, que excedem sem proporção nem medida a capacidade de todos nossos sentidos e a esfera natural de todas nossas potências. Pois, se o mais alumiado nas coisas da bem-aventurança entre os profetas, qual foi Isaías, e o mais alumiado e experimentado nelas entre os apóstolos, qual foi S. Paulo, não sabem dizer nada do que viram, que posso eu dizer do que não vi, nem mereço ver? Mais ainda. Quando os primeiros criados do rei, que eram os profetas, foram chamar os convidados, diz o texto que eles não quiseram vir: Nolebant venire (Mt. 22,3); e quando os segundos criados, que eram os apóstolos, os chamaram, também diz que não fizeram caso disso: Illi autem neglexerunt (lbid. 5). Pois, se chamados com toda a eloqüência dos profetas, e com toda a eficácia dos apóstolos se não persuadiram, que argumentos, ou que demonstrações vos posso eu fazer, para que entendais o que eles não entenderam, para que queirais o que eles não quiseram, para que estimeis o que eles desprezaram, e para que procureis e trabalheis por alcançar o que eles, uma e outra vez rogados, não admitiram.

III

Esta é a razão, fiéis, porque hoje me despedi de todas as outras Escrituras, e só com o Evangelho, nua e secamente considerado, quero fazer prova da vossa fé e da sua graça. Em todas as outras Escrituras apenas se acham divididas três coisas, as quais Cristo, Senhor nosso, pôs juntas neste Evangelho, para com elas nos ensinar a fazer inteiro e cabal conceito da glória a que nos tem convidado. Propõe-nos esta glória em metáfora de banquete, em que até os mais grosseiros sentidos são agudos, e as três circunstâncias notáveis que nele pondera, e quer que ponderemos, são estas. Primeira: quem o fez? Segunda: para quem se fez? Terceira: quanto custou a fazê-lo?

O rei que fez este banquete da glória: Qui fecit nuptias, é Deus. Assim o entendem concordemente todos os Padres e expositores, e se é Deus o que o fez: Qui fecit, quais serão as delícias incompreensíveis daquela mesa celestial e divina, a qual fez e colocou diante de si o mesmo Deus, não só para última ostentação de sua majestade e grandeza, mas para fazer eternamente bem-aventurados a todos os que se assentarem a ela? Tudo o que se pode imaginar e encarecer se encerra na significação daquela imensa palavra: Qui fecit. O que o fez é a infinita Sabedoria, o que o fez é a infinita onipotência, o que o fez é a infinita liberalidade e o infinito amor. Vede, que será o que fez? Os filósofos, que não tinham fé, pelas coisas que se vêem neste mundo inferior, entenderam que o autor delas era Deus. Nós, que temos fé, havemos de argumentar às avessas, e porque sabemos que o autor das coisas do céu, que não vemos, é Deus, daí havemos de argüir quais elas serão. Mas não é isto o que pondero; mais alto é o fundo do nosso texto.

Simile est regnum caelorum homini regi, qui fecit nuptias filio suo (Mt. 22, 2): É semelhante o reino do céu a um homem rei, que fez as bodas a seu filho. — Este homem rei, como dissemos ao princípio, é Deus Padre, que fez as bodas a seu filho, quando o desposou e uniu com a natureza humana. Pois, se é Deus Padre, por que se chama rei homem: Homini regi? Que se chame rei, para significar a soberania de sua majestade e a grandeza de seu poder, bem está; mas rei homem, parece impropriedade, porque o Padre Eterno, ainda que fez homem a seu Filho, ele nem se fez, nem é homem. Diga logo a parábola: semelhante é o reino do céu a um rei, e não a um rei homem, pois não é homem o rei de que fala. E se quer distinguir este rei dos outros reis, diga: a um rei Deus, e não a um rei homem: Homini regi. Assim havia de ser se a parábola não fora do banquete da glória. Mas porque é do banquete da glória, sendo o Eterno Padre Deus, e não homem, chama-se contudo homem, e não Deus, porque na magnificência deste banquete, para que fosse mais magnífico, não obrou Deus como Deus, senão como homem. Ora vede. O homem, quando se quer mostrar magnífico e grandioso, faz quanto pode; porém Deus, ainda que quisesse fazer quanto pode, não pode. A razão que a nós nos basta, deixadas outras, é muito clara, porque, como Deus é onipotente, por mais que faça, sempre lhe fica poder para fazer mais. E se pudesse fazer quanto pode, esgotar-se-ia a onipotência, e, não sendo onipotente, deixaria de ser Deus. Este é pois o modo com que Deus obra em todas as outras coisas, em que sempre faz menos do que pode, e pode mais do que faz. Porém no banquete da glória, como se obrara como homem, faz tudo o que pode, e não pode mais. Por quê? Porque se dá a gostar e a gozar a si mesmo. A glória imensa do mesmo Deus, que só ele compreende, em que consiste? Consiste em se ver, em se amar, em se gozar a si mesmo. Pois esse mesmo Deus, e esse mesmo sumo bem, que Deus vê, é o que nós vemos, esse mesmo que Deus ama é o que nós amamos, e esse mesmo que Deus goza é o que nós gozamos na glória, porque a sua mesa e a nossa é a mesma. E isto é o que fez este rei Deus, como se fora rei homem: Homini regi, qui fecit.

Dirá, contudo, alguém que não basta isto só para Deus obrar como homem na magnificência da glória, porque os homens, quando se querem ostentar magníficos, não só fazem tudo o que podem, senão mais do que podem. Vemos que os reis homens, depois de despender seus tesouros, ou os reconhecer menores que sua magnificência, carregam de tributos sobre tributos os povos, para assim igualar à ostentação de sua grandeza. E os homens que não são reis também fazem o mesmo, e por isso nas festas de um dia se empenham para toda a vida, e deserdam e empobrecem toda a sua descendência. Logo, para Deus obrar como homem na magnificência do banquete da glória, não só havia de fazer quanto pode, senão mais do que pode. Assim é, e assim o faz Deus, se bem se considera. Obra Deus tanto como homem no banquete da glória, que não só faz tudo o que pode, senão também mais do que pode, porque faz que gozemos nela o que ele não pode fazer. Deus pode fazer criaturas, e essas mais e mais perfeitas infinitamente; pode fazer mais e melhores mundos, pode fazer mais e melhores céus; mas fazer-se a si mesmo, ou outros como ele é, não pode, porque nem ele se fez a si. E isto que Deus não fez nem pode fazer, faz que nós o gozemos no banquete da glória, sendo o mesmo Deus a primeira e a principal iguaria daquela mesa divina. No nosso texto o temos.

Quando o rei mandou a segunda vez chamar os convidados, a forma do recado foi que viessem às bodas, porque o banquete estava preparado: Ecce prandium meum paravi: venite ad nuptias[2]. E suposta esta distinção das bodas enquanto bodas e enquanto banquete, é muito para reparar que as bodas diz o texto que as fez o rei: Qui fecit nuptias filio suo; porém o banquete, não diz o rei que o fez, senão que o preparou: Ecce prandium meum paravi. Pois, por que não diz também que fez o banquete, assim como diz que fez as bodas? Porque as bodas fê-las Deus; o banquete não o fez: preparou-o somente. As bodas significam a Encarnação do Verbo, o banquete significa a glória dos bem-aventurados; e a Encarnação do Verbo fê-la Deus porque fez a humanidade e a união hipostática; porém a glória dos bem-aventurados não a fez, porque o objeto da glória, e o que os bem-aventurados nela gozam, é o mesmo Deus, e Deus nem se fez, nem se pode fazer. Mas este mesmo banquete da glória, que não diz que fez, diz altíssima e propriissimamente que o preparou, porque, elevando sobrenaturalmente o entendimento com que o vemos, com este, que se chama lume da glória, o prepara e nos faz capazes de o gozar. De sorte que o banquete da glória é um composto de tudo o que Deus pode fazer, e de mais do que pode. Da parte do objeto, que é Deus visto e gozado, é mais do que Deus pode fazer, porque Deus não se pode fazer a si mesmo, e da parte do sujeito, que é o bem-aventurado que vê e goza a Deus, é tudo o que Deus pode, porque não pode Deus fazer mais que elevar a criatura a que o veja e goze, assim como ele é; e por este modo se verifica que no banquete da glória faz Deus, como se fosse homem, não só tudo o que pode fazer, senão mais do que pode.

E que mais fazem os homens quando se querem mostrar magníficos? Se lhes não basta para isso o que têm de seu, pedem emprestado o que não têm, e com o seu e o emprestado suprem a magnificência da obra. Isto fazem ultimamente os homens, e isto é o que também fez Deus, como se obrasse como homem: Homini regi. O homem, com os olhos da alma, que são espirituais, se forem elevados, pode ver a Deus; mas com os olhos do corpo, em que não é possível tal elevação, não o pode ver; e que fez Deus para que o homem não só com a alma, mas também com o corpo, o gozasse inteiramente no banquete da glória? O que fez Deus foi pedir emprestado à natureza humana o corpo que não tinha, e unindo, por este modo inefável, a divindade com a humanidade, o mesmo banquete da glória, que tem por objeto a Deus, ficou não só divino, mas divino e humano juntamente: divino, para beatificar o homem na alma, e humano, para o beatificar no corpo. É pensamento altíssimo de S. Cipriano: Deus homo factus est, ut homo haberet in Deo unde fieret plene beatus: in anima videndo divinitatem, in corpore videndo humanitatem. Sendo o homem composto de alma e corpo, se somente visse a Deus com os olhos da alma, ficaria beatificado como de meias, e não inteiramente; e como se Deus fizera a consideração de Epicteto: — Hoc inter epulandum considera, duos tibi excipiendos convivas, corpus et animam — vendo que em cada homem se haviam de assentar à sua mesa dois convidados, um que é a alma, outro que é o corpo, para que um e outro recebesse o gosto, e tivesse a satisfação proporcionada à sua capacidade. A este fim, diz Cipriano, tomou Deus a natureza humana, e se vestiu do corpo que não tinha, fazendo-se homem, para que o homem, gozando no mesmo Deus a vista da divindade, com os olhos da alma, e a vista da humanidade, com os do corpo, fosse inteiramente bem-aventurado: Ut homo haberet in deo unde fieret plene beatus. Aos anjos, que são puros espíritos, basta-lhes, para ser inteiramente bem-aventurados, ver a divindade de Deus; porém ao homem, que é composto de espírito e corpo, não lhe bastava: por isso, pois, não lhe bastando também a Deus, para nos fazer inteiramente bem-aventurados no banquete na glória, a natureza divina que tinha, tomou emprestado da natureza humana o que lhe faltava, e deste modo encheu as medidas, ou a imensidade, de sua magnificência, obrando não só como Deus, senão também como homem: Homini regi, qui fecit.

IV

Declarada a grandeza da glória por parte de quem a fez, segue-se a segunda consideração, e maior ainda — se pode ser maior — em que vejamos e ponderemos para quem se fez. Naquela considerou-se o autor da obra, que é o Pai; nesta considerou-se o motivo, que é o Filho; Fecit nuptias Filio suo. Mas quem poderá declarar bastantemente a excelência infinita deste soberano motivo, que só o mesmo Pai compreende? Os mais sublimes entendimentos, quando querem rastear de algum modo a realeza do banquete da glória, do que vemos e experimentamos na terra conjecturam o que será no céu. Na terra pôs Deus a mesa aos homens, e é coisa tão digna de agradecimento como de admiração, que, de seis dias em que criou o mundo, empregasse os três maiores e mais fecundos só em prover esta mesa. Tudo quanto nada no mar, tudo quanto voa no ar, tudo quanto nasce ou pasce na terra, são os simples que produziu a natureza, para que deles compusesse e temperasse a arte, o sustento e regalo do homem. As espécies que se contêm debaixo destes quatro gêneros vastíssimos, tão várias na formosura tão esquisitas nos sabores e infinitas no número, excedem sem limite a capacidade do gosto e dos outros sentidos. E que discurso há, que não pasme na consideração do poder, magnificência e grandeza com que mais parece quis Deus enfastiar o apetite humano com a superfluidade da mesa, que fartar a necessidade com a abundância? Daqui faz três ilações Santo Agostinho, comparando lugar com lugar, tempo com tempo, e pessoas com pessoas: Si tanto facis nobis in carcere, quid ages in pelatio? Si tanta solatia in hac die lachrymarum, quanta conferes in die nuptiarum? Quid dabit iis, quos praedestinavit ad vitam, qui haec dedit etiam iis, quos praedestinavit ad mortem? Se Deus fez tantas delícias para o desterro e para o cárcere, que será para a pátria e para o palácio? Se assim nos sustenta e regala no tempo das lágrimas, que será no dia das bodas? Se tudo isto criou também para os inimigos, que hão de arder no inferno, que será para os amigos, que o hão de gozar no céu? — Esta é a diferença que pondera, e o argumento e conjectura que faz Santo Agostinho. Mas, com licença de seu alto entendimento, ou sem ela, o excesso que se argúi do nosso texto é infinitamente maior. Não faz comparação de lugar a lugar, nem de tempo a tempo, nem de estado a estado, nem de pessoas a pessoas, ainda que sejam tão indignas umas, como os precitos: Quos praedestinavit ad mortem — e tão dignas outras, como os predestinados: Quos praedestinavit ad vitam. Mas, abstraindo de toda a comparação -porque a não há — diz que será o banquete qual deve ser o das bodas do Filho: Qui fecit nuptias Filio suo. Considere quem o puder ou souber considerar, quanta é a sua grandeza e dignidade do Filho, cujas bodas se festejam, tão infinito, tão imenso e tão Deus como o próprio Pai, e daqui forme o conceito de qual será o banquete, porque toda a outra conseqüência e conjectura feita de uns homens a outros homens, por mais amigos, por mais amados, por mais cheios de graça, por mais santos e por mais dignos que sejam os que se hão de assentar àquela soberana mesa, é infinitamente desigual à sua magnificência.

Haverá, porém, quem cuide — e fundado no nosso mesmo Evangelho -que a grandeza e magnificência da mesa da glória não se há de medir com a dignidade do Filho, senão com a dignidade dos convidados. Assim o disse o mesmo rei, quando eles não quiseram vir: Sed qui invitati erant, non fuerunt digni[3]. Não lhes chamou ingratos, descorteses e descomedidos, como mereciam; o que somente disse é que não foram dignos. E quem são os dignos ou indignos do banquete da glória? Os dignos são os que têm merecimentos de boas obras, e os indignos os que os não têm. Não se segue daqui que os que não foram dignos de vir ao banquete também não tinham sido dignos de ser chamados a ele, porque a dignidade que faz dignos de ser chamados funda-se na excelência da natureza racional, capaz de ser elevada a ver a Deus; e a dignidade que faz dignos de o ver e gozar na glória funda-se na disposição da vontade e merecimento das boas obras. E daqui vem que, sendo o banquete o mesmo, uns o gozam mais, outros menos, segundo a maior ou menor dignidade, isto é, segundo o maior ou menor merecimento com que se fazem dignos. Logo, se a porção ou graus da glória — que Deus não quis que alcançássemos, senão a título de prêmio — se mede ou há de medir no céu pelos merecimentos desta vida, e o merecimento humano, por grande e heróico que seja, sempre é curto e limitado, a mesma sentença do rei, com que diz que os convidados não foram dignos, não só se lhes nega a eles a dignidade, mas também diminui ao banquete, porque, medido com os merecimentos, ainda dos dignos, e muito dignos, sempre será limitado.

Bem se inferia assim, se Deus fizera o banquete para nós por amor de nós; mas o Evangelho nega a conseqüência, e prova o contrário, porque diz que o não fez o rei para os convidados por amor dos convidados, senão para os convidados por amor do Filho: Fecit nuptias Filio suo. Dizei-me: quando nasce ou se desposa um príncipe primogênito, não se fazem festas reais com a maior grandeza, com a maior majestade, com o maior aparato e empenho que é possível? Sim. E esse empenho e aparato das festas reais, com quem se mede? Com o merecimento do povo, que as há de ver e gozar, ou com o merecimento e grandeza do príncipe, por quem se fazem? Claro está que com o merecimento e grandeza do príncipe. Pois o mesmo se passa no banquete do céu. A grandeza da glória e bem-aventurança que havemos de gozar não se mede pela estreiteza dos nossos merecimentos, que são limitados, senão pelos merecimentos e dignidade do príncipe, que é infinita. Os merecimentos nossos, fundados nos seus, só servem de ter melhor lugar no banquete, assim como cá nas festas uns têm lugar mais alto, outros mais baixo. Porém o ver e gozar absolutamente, ou a grandeza do que se vê e se goza, não se mede pelos nossos merecimentos, senão pelos de Cristo, porque se não foram os merecimentos de Cristo, que é a causa de nossa predestinação, a ninguém se dera a glória.

Considerai agora qual é a grandeza infinita do príncipe desposado nas bodas, e daí podereis inferir qual será a magnificência do banquete feito para elas. Assim o declarou com majestosa energia o mesmo rei. No recado que deu aos segundos criados, disse: Ecce prandium meum paravi: venite ad nuptias (Mt. 22, 4). Notai que não disse está preparado o banquete, vinde ao banquete, senão: está preparado o banquete, vinde às bodas. E por quê? Porque as mesmas bodas, por serem de quem eram, eram as que mais encareciam qual havia de ser o banquete. Como se dissera: Já uma vez não quisestes vir ao banquete, sem dúvida porque não tendes entendido qual ele é. E para que vos arrependais de não ter querido, e venhais com tanta ambição como vontade, adverti e considerai qual será o banquete, pois é feito para as bodas de meu Filho: Venite ad nuptias. Se o banquete fora feito para vós, então o podereis estimar menos; mas sendo feito para o Filho do Rei, e havendo vós de assentar à mesa com ele, como vos podeis escusar? Assim concluiu com mais alta e mais adequada consideração que as primeiras, o mesmo Santo Agostinho: Ubi erit unicus ejus, ibi erunt et illi: haeredes quidem Dei, cohaeredes autem Christi. Já não argumenta Agostinho da terra para o céu, nem dentro do mesmo céu com o merecimento e dignidade dos que Deus escolheu para a glória, nem com a graça e amor com que os escolheu. Não diz que os convidados se assentaram à mesa com os patriarcas, apóstolos e mártires, que tanto padeceram e mereceram, nem com os anjos e arcanjos, e as outras hierarquias supremas dos espíritos bem-aventurados, nem, finalmente, que terão lugar com a mesma Mãe de Deus, senão com o Filho: Ubi erit unicus ejus, ibi erunt et illi — porque este é só o argumento cabal, e esta a medida adequada da magnificência do banquete. Por isso ajunta, com nova e canônica confirmação, que o gozaremos não só como herdeiros de Deus, senão como co-herdeiros de Cristo: Haeredes quidem Dei, cohaeredes autem Christi. Faz muita diferença Agostinho, e considera grande vantagem em entrarmos no banquete da glória, mais como co-herdeiros de Cristo que como herdeiros de Deus. E por que razão? Não por outra – que não pode ser outra — senão pela que ponderamos em todo este discurso. Porque entrar ao banquete como herdeiros de Deus, declara somente a magnificência de ser feito por Deus; porém entrar como co-herdeiros de Cristo, acrescenta a vantagem não só de ser feito por Deus, mas por Deus e para seu Filho: Qui fecit nuptias Filio suo.

V

E se estas duas considerações ainda não chegam a nos persuadir de todo, passemos à terceira e última, de que se não pode passar. Na primeira vimos o autor, na segunda o motivo, nesta veremos o preço. Na primeira, o autor onipotente que fez o banquete; na segunda, o motivo imenso por que se fez; nesta terceira, o preço infinito que custou o fazer-se. E se a primeira consideração foi incompreensivelmente grande, e a segunda ainda maior, esta é tão superior a toda a admiração e encarecimento, que quase excede a fé. Dirá — e com muita razão -a fé, que a quem pode tudo, não lhe pode custar nada fazer o que pode. Que podia logo custar ao Onipotente fazer este banquete? O mesmo Onipotente, que é o rei que o fez, o disse. Vendo que os convidados se escusavam, mandou-lhes declarar os gastos que tinha feito, com este segundo recado: Tauri mei et altilia occisa sunt, et omnia parata: venite ad nuptias (Mt. 22, 4): Dizei-lhes que venham, porque as reses e as aves já estão mortas, e tudo aparelhado. — Pois, para o banquete da glória matou-se alguma coisa? Sim, e não menos que o Filho de Deus. Se Cristo não morrera, nenhum Filho de Adão podia entrar na glória, porque no paraíso da terra perdemos o direito que tínhamos ao do céu, e pela gula de um bocado ficamos excluídos do banquete. Morreu pois Cristo, e derramou o preço infinito de seu sangue, e este preço infinito foi o custo que se fez para de novo se comprar e preparar o que por tão pouco se tinha perdido. Pesai agora, se podeis, o preço daquela morte, e contai as gotas daquele sangue, cada uma das quais vale mais que infinitos mundos, e então podereis rastear de algum modo o valor incompreensível do que com ele se comprou. Este mundo, que tanto nos leva os olhos e os corações, e tantas coisas tem deleitáveis, dignas do poder e liberalidade de seu Autor, não custou a Deus mais que um aceno de sua vontade. E se quisera fabricar outro mundo mais precioso, em que a terra fora ouro, o mar e os rios prata, as areias pérolas, os penhascos diamantes, as plantas esmeraldas, as flores rubis e safiras, e os frutos e seus sabores proporcionados a esta riqueza e delícia, com outro aceno da mesma vontade, e sem mais tempo que um instante, o pudera criar de nada. Qual será logo o preço daquele bem, ou suma de bens que a este mesmo Deus, tão justo como poderoso, não custou menos que a morte e sangue de seu Filho? Mas ponderemos as palavras do Pai, que todas estão cheias de profundos mistérios, com que mais se declara este.

Tauri mei et altilia occisa sunt; diz primeiramente o rei que estão mortas as reses e as aves para o banquete. E que reses e aves são estas? Já se sabe que na parábola são o que são, e no fundo dela o que significam. Sendo, pois, o significado de umas e outras Cristo morto, como dizem todos os intérpretes, as reses, que são animais da terra, significam a humanidade de Cristo, e as aves, que são do céu, a divindade. E posto que a divindade seja imortal, de ambas se diz, contudo, que estão mortas: Tauri mei et altilia occisa sunt — porque, como a natureza humana e a divina estão unidas em um suposto, não só morre Cristo enquanto homem, mas também é verdadeiro dizer que morreu Deus. E não deve passar sem reparo o modo e distinção advertida, com que o rei falou neste caso, porque às reses chama suas, e às aves não: Tauri mei et altilia. Pois se o rei é Deus, Senhor de tudo, por que chama suas as reses, e não as aves? Pela mesma razão que temos dito. Sobre a humanidade de Cristo tem Deus domínio; sobre a divindade não tem nem pode ter domínio, porque é o mesmo Deus: e como as reses, no composto inefável de Cristo, significam o que tem de humano, e as aves o que tem de divino, por isso o rei, que significa e representa a Deus, às reses chama suas, e às aves não: Tauri mei et altilia. Como se nos dissesse: o humano que há em Cristo é meu, o divino não é meu: sou eu. Finalmente a palavra occisa sunt, que significa não qualquer morte, mas violenta, posto que própria para as reses e aves do banquete, também a disse o rei com particular mistério e energia, porque tal foi a morte de seu Filho, com que Deus nos preparou o banquete dá glória. Não morte natural que bastara — mas violenta, e não com o sangue congelado nas veias, mas derramado delas. No mesmo texto temos o caso, e toda a história dele singularmente descrita.

Quando o rei mandou segundo recado aos convidados, alguns deles foram tão insolentes e furiosos que não só não quiseram vir, mas prenderam os criados do rei, e lhes fizeram muitas afrontas, e por fim os mataram: Reliqui vero tenuerunt servos ejus, et contumeliis affectos occiderunt[4]. Os criados que levavam este segundo recado, já dissemos que eram os apóstolos. Os convidados que os prenderam, afrontaram e mataram, não há dúvida que foram os cidadãos de Jerusalém, os quais não só tiraram a vida a alguns dele, senão também ao Apóstolo dos apóstolos, que foi o mesmo Cristo, e de quem particularmente fala o texto. Prova-se por muitos princípios. Primeiro porque Cristo foi próprio e particular apóstolo do povo de Israel, como ele mesmo disse (Mt. 15,24). Segundo, porque o rei que mandou os recados era o Padre Eterno, e Cristo foi imediatamente mandado pelo Padre, como os outros apóstolos imediatamente por Cristo. Terceiro, porque de Cristo se verifica com toda a propriedade o ser preso, o ser afrontado com muitas injúrias, e o ser cruelmente morto: Tenuerunt servos ejus, et contumeliis affectos occiderunt. Nem faz contra isto o nome de servo: servos ejus, porque, não obstante que alguns teólogos tiveram para si que Cristo, ainda em respeito de Deus, se não podia chamar servo, é certo que, enquanto homem, verdadeira e propriamente foi servo de Deus, e assim se pode e deve chamar, como, depois de Santo Tomás, prova douta e difusamente o Padre Soares.

Finalmente, para que conste com toda a evidência que o nosso texto fala literalmente da morte de Cristo, vai por diante a história, e diz que, sabendo o rei o que aqueles homicidas tinham feito, mandou seus exércitos a que os fossem castigar, e não só os mataram e destruíram, mas também arrasaram e queimaram a sua cidade: Missis exercitibus suis, perdidit homicidas illos, et civitatem illorum succendit (Mt. 22, 7). E que exércitos mandados por Deus — que é o rei — e que cidade assolada e abrasada foi esta? São Jerônimo: Per hos exercitus Romanos intelligimus sub duce Vespasiano et Tito, qui occisis Judaeae populis, preavaricatricem incenderunt civitatem: Estes exércitos — diz São Jerônimo — foram os dos romanos, governados por Vespasiano e Tito, os quais, destruídos e mortos os povos de Judéia, assolaram e queimaram a cidade de Jerusalém, em pena do pecado da morte de Cristo. — O mesmo Senhor, indo a morrer, e muitas vezes antes, lho tinha assim profetizado. E porque esta morte tão violenta, padecida em Jerusalém, foi a que no mesmo ponto abriu as portas do céu, e este o preço infinito que se suspendeu para o banquete da glória, por isso o rei mandou dizer aos convidados, que já os gastos estavam feitos, e as reses e aves mortas: Tauri mei et altilia occisa sunt.

Mas aqui se deve notar uma diferença admirável entre o primeiro recado e o segundo. No primeiro recado só mandou o rei que fossem chamar os convidados: Misit servos suos vocare invitatos ad nuptias. No segundo recado não só os mandou chamar, mas acrescentou que já o banquete estava aparelhado e o gasto feito: Dicite invitatis: ecce prandium meum paravi, tauri mei et altilia occisa sunt, et omnia parata. Pois, se os primeiros criados não levaram este recado, por que o levaram os segundos? E se estes haviam de dizer, e disseram, que já estava aparelhado o banquete, os primeiros, por que não disseram o mesmo? Porque nem o podiam dizer com verdade, nem o rei lhes podia mandar que o dissessem. Os primeiros criados, como vimos, foram os profetas; os segundos os apóstolos. Os profetas foram antes da Encarnação e morte de Cristo; os apóstolos foram depois de sua morte; e como por meio da morte de Cristo se abriu o céu, que estava fechado, e se preparou o banquete, que até então só estava prometido, por isso os primeiros criados não disseram nem podiam dizer que estava preparado o banquete, e os segundos sim; e por isso os que mereceram a glória na lei antiga, iam esperar ao limbo, e os que a merecem agora na lei da graça, entram logo a gozá-la.

E para que não fique sem ponderação a última cláusula do recado, o que nele disse o rei é que tudo estava aparelhado: Et omnia parata. Tudo, disse, porque tudo o que o homem pode querer e tudo o que Deus pode dar se compreende no banquete da glória. Mas não é isto o que pondero. O em que reparo é que tendo dito no princípio: Ecce prandium meum paravi, torne a repetir no fim: Et omnia parata. Se tinha dito que já estava aparelhado o seu banquete, por que torna a dizer que está aparelhado tudo? Porque antes da última cláusula fez menção do que estava morto para o mesmo banquete, e antes da primeira não; e para vir em conhecimento do que é ou pode ser o banquete da glória, não se forma tão grande conceito de dizer Deus que é seu: Prandium meum, quanto de se entender que custou a morte de Deus: Tauri mei et altilia occisa sunt. Por isso acrescentou depois: Et omnia parata, porque muito mais se encarece a grandeza do banquete por custar o que custou, do que por ser de quem é. É de Deus, e custou a morte de Deus: logo muito mais se engrandece pelo preço que pelo autor, porque Deus que o fez, como onipotente, pode fazer mais e menos; mas o mesmo Deus, que o pagou como justo, não pode dar menos pelo que vale mais. Oh! Deus, sempre incompreensível, mas nunca com tanto excesso como neste mistério! Sendo o Pai o que fez as bodas, e o Filho o desposado, que houvesse de morrer o desposado para o Pai fazer o banquete das bodas? Pare a consideração neste pasmo, pois não pode passar daqui.

VI

Tem-nos mostrado o Evangelho dentro em si mesmo qual seja a magnificência do banquete da glória, pelo Autor, pelo motivo e pelo preço dela, tudo infinito: infinito quem a fez, infinito por quem se fez, e infinito o que custou fazer-se. Mas somos chegados a ponto em que o mesmo Evangelho parece que nos desfaz tudo o que com ele fizemos até agora. Não querendo vir os convidados ao primeiro e segundo recado, mandou o rei chamar outros, e, depois que estiveram assentados à mesa, qui-la honrar o mesmo rei com a majestade de sua presença: Intravit, ut videre discumbentes. Não há festa sem desar, e assim aconteceu nesta. Viu entre os demais um homem que não estava vestido com a decência que convinha à realeza do banquete, estranhou o atrevimento, e mandou a seus ministros que o lançassem fora, e, atado de pés e mãos, o levassem ao cárcere. As palavras que disse o rei foram: Quomodo huc intrasti, non habens vestem nuptialem? Como entraste aqui sem vestidura nupcial? — A vestidura nupcial, como declaram todos os Padres e expositores católicos, é a graça de Deus. Sem graça de Deus, é de fé que ninguém pode entrar no céu: logo este banquete, de que até agora falamos, não é nem pode ser o banquete da glória. Mais: a glória e bem-aventurança do céu, de sua própria natureza é perpétua e eterna, porque doutra sorte não seria bem-aventurança; e quem uma vez entrou na glória não pode sair nem ser privado dela. Este homem que entrou e estava assentado à mesa sem vestidura nupcial, foi lançado fora do banquete: logo este banquete não é o da glória.

Este argumento é tão forte, que só o diviníssimo Sacramento do Altar nos pode dar a solução deles, tão verdadeira como admirável, e tão própria deste dia como verdadeira. Respondo que esta mesma mesa no princípio e na continuação da parábola era o banquete da glória; porém, no fim da mesma parábola, a que agora chegamos, é o banquete do Sacramento. E porque à mesa do Santíssimo Sacramento pode haver homens tão atrevidos e sacrílegos que cheguem com consciência de pecado — o qual só Deus conhece, e os outros que estão à mesma mesa não — por isso o rei, que é Deus, viu que um dos que estavam assentados a ela não tinha, como os demais, a vestidura da graça: Et vidit ibi hominem non vestitum veste nuptiale. Aos que não quiseram vir ao banquete, enquanto banquete da glória, disse o rei que não eram dignos: Qui invitati erant, non fuerunt digni — porque ao banquete do céu, que é o da glória, ninguém pode entrar, senão somente os dignos; porém, no banquete da terra, que é o Santíssimo Sacramento, bem pode entrar algum que seja indigno; e por isso o rei, cujos olhos só vêem e penetram as consciências, viu que um dos que estavam à mesa não trazia vestidura nupcial: Non vestitum veste nuptiale.

A distinção e diferença bem vejo que estão vendo todos que é muito verdadeira e muito acomodada. Mas também vejo que igualmente duvidam da suposição dela, e que me estão perguntando como pode, ou podia ser, que no mesmo dia e na mesma parábola de Cristo, a mesma mesa e o mesmo banquete, que começou em banquete da glória, acabasse em banquete do Sacramento? Aqui está o ponto da maior dificuldade. Mas vede como naturalmente foi assim, nem podia ser de outro modo. O banquete havia de ser ao jantar, que assim o disse o rei: Ecce prandium meum paravi. E como os convidados não quiseram vir ao primeiro recado, e foi necessário ir o segundo, em que houve más respostas, prisões, injúrias e mortes, com estas dilações, que não se fizeram na mesma corte do rei, senão na outra cidade que refere o texto, passaram-se as horas do jantar. Depois disto despachou o rei, e despediu os seus exércitos, para que fossem castigar os homicidas e queimar a cidade rebelde, em que se gastou muito mais tempo. Finalmente foram-se chamar outros homens, que viessem substituir os lugares dos convidados, e estes não se trouxeram de junto ao paço do rei, mas foram-se buscar, por seu mandado, ao fim da cidade e às saídas das ruas: Ite ad exitus viarum (Ibid. 9). Nestas diligências, tantas e tão detençosas, posto que feitas a toda a pressa, passou-se forçosamente o resto do dia, com que o banquete veio a se fazer à noite, e já não foi jantar, como estava, determinado, senão ceia. E como foi ceia, e não jantar, e as iguarias eram as mesmas, por isso também o que era o banquete da glória se mudou em banquete do Sacramento.

E qual é ou foi a razão desta tão notável mudança? A razão clara e manifesta é porque entre a bem-aventurança do céu e o Sacramento na terra, não há outra distinção nem outra diferença de banquete a banquete, senão ser um de dia, outro de noite; um com luz do sol, outro com luz de candeia; um com o lume da glória, que é claro, outro com o lume da fé, que é escuro; um que se goza e se vê, outro que se goza sem se ver. Não é certo que o mesmo Deus que se goza no céu é o que está no Sacramento? Sim. Não é também certo que lá se vê esse mesmo Deus, e cá não? Também. Pois essa é só a diferença que há entre o banquete da glória no céu e o do Sacramento na terra. A glória é o sacramento com as cortinas corridas; o Sacramento é a glória com as cortinas cerradas. Lá come-se Deus exposto e descoberto: aqui come-se coberto e encerrado. Se os que se assentaram hoje a esta mesma mesa, parte foram cegos e parte não, que diferença havia de haver entre uns e outros? Os que tivessem olhos haviam de comer e ver o que comiam; os cegos não haviam de ver o que comiam, mas haviam de comer as mesmas iguarias que os outros. O mesmo nos sucede a nós, em comparação dos bem-aventurados do céu. Eles comem e vêem, porque comem de dia: nós comemos e não vemos, porque comemos de noite. É verdade que ainda que de noite, comemos à luz da candeia, que é o lume da fé; mas este lume é de tal qualidade, que certifica mas não mostra, porque, se mostrara o que certifica, já não fora fé.

Quando o rei mandou ir preso o que se assentou à mesa sem vestidura nupcial, disse que o levassem às trevas exteriores: Mittite eum in tenebras exteriores (Ibid. 13). E por que disse nomeadamente às trevas exteriores, ou trevas de fora? Para significar, como verdadeiramente era, que também dentro na mesma sala, onde se fazia o banquete, havia trevas. As trevas do cárcere, onde mandava levar o delinqüente, eram trevas exteriores e de fora; as trevas da sala, onde comiam os convidados, eram trevas interiores e de dentro. E quem fazia umas e outras trevas? As trevas do cárcere fazia-as o escuro do lugar; as trevas do banquete fazia-as o escuro da fé: mas este escuro, ou esta escuridade da fé, tem tal excelência, que tanto nos assegura a nós da verdade do que não vemos, como a vista certifica aos bem-aventurados da verdade do que vêem. Para ver os convidados, diz o texto que entrou o rei: Intravit rex, ut videret discumbentes. E nota Abulense que o fim e intento desta entrada foi: Ut laetificaret epulantes, cum eis praesentiam suam exhiberet: Para alegrar, aos que comiam, com a sua presença. — Com a sua presença, disse, e não com a sua vista; e disse bem, porque o que nos alegra e satisfaz no banquete do Sacramento não é a evidência da vista, senão a certeza da presença. Por isso advertidamente o texto não diz que entrou o rei para ser visto, senão para ver: Ut videret discumbentes. No banquete do céu os que estão à mesa vê-nos Deus, e eles vêem a Deus; no banquete do Sacramento, não é a vista recíproca, senão de uma só das partes: Deus vê-nos a nós, e nós não o vemos a ele, porque se a fé nos certifica da presença, a mesma fé nos encobre a vista.

Mas, se o rei, como dissemos, é o Eterno Padre, e o que comemos no banquete do Sacramento é o corpo de Cristo, como se diz que entrou o Padre neste banquete? Porque não fora igual o banquete do Sacramento ao banquete da glória, se o Eterno Padre também não entrara nele. Os bem-aventurados não só vêem uma Pessoa divina, senão todas, porque vêem a Deus como é, e Deus é um em essência e trino em pessoas. E se no Sacramento só estivera o corpo e sangue de Cristo, e não a divindade e a Pessoa do Verbo, e as outras Pessoas divinas, encerrara mais em si o banquete da glória que o do Sacramento. É, porém, certo e de fé, que tanto encerra em si o Sacramento, quanto a glória de todos os bem-aventurados e a do mesmo Deus, não ex vi verborum[5] — como falam os teólogos — mas concomitanter. Ainda que por força das palavras da consagração só esteja no Sacramento o corpo e sangue de Cristo, como este corpo e sangue está unido à divindade, e a divindade, não por união, mas por unidade e identidade, é inseparável das Pessoas divinas, por isso todas as Pessoas divinas estão também no Sacramento, não como partes essenciais de que o mesmo Sacramento se componha, mas como partes — se assim se pode chamar — que necessariamente o acompanham e entram nele. E esta é a verdade e propriedade com que o rei, que é o Padre, se diz que entrou ao banquete: Intravit rex.

E se o Sacramento, quanto à substância, é o mesmo banquete que o da glória, quanto à grandeza e magnificência com que se comunica aos convidados, em tudo é semelhante. No banquete da glória repartem-se as iguarias sem se partirem, porque Deus é indivisível, e o mesmo se passa no Sacramento: Non confractus, non divisus, integer accipitur. No banquete da glória dá-se todo Deus a todos, e todo a cada um; e no Sacramento tanto recebe um como todos: Sic totum omnibus, quod totum singulis. No banquete da glória, por mais que cresçam os convidados, não se gastam nem se diminuem os manjares; e no Sacramento, ainda que sejam muitos os que o recebem, nem por isso se diminui: Sumit unus, sumunt mille, nec samptus consumitur. No banquete da glória, sendo Deus espírito, não só faz bem-aventurados os espíritos, senão também os corpos; e no Sacramento, dando-nos Cristo seu corpo, não só é rejeição dos corpos, senão muito mais dos espíritos. Ut duplicis substantiae totum cibaret hominem. No banquete da glória os que vêem a Deus transformam-se no mesmo Deus; e no Sacramento os que comem a Cristo também se transformam em Cristo, o qual para isso, sendo Deus, se fez homem: Ut homines Deos faceret factus homo. No banquete da glória enfim, gostam-se todos os deleites e delícias que manam, como de fonte, da divindade; e no Sacramento também se gozam e se gostam, porque a doçura e suavidade de todos se bebe ali na sua própria fonte: In quo spiritualis dulcedo in proprio fonte gustatur. Assim o diz e ensina o Doutor Angélico, Santo Tomás, de quem são todos os textos citados, e de quem os tomou e aprovou a Igreja.

VII

De tudo o que fica dito neste discurso, parece que bastantemente nos tem mostrado o nosso Evangelho que o banquete que havia de ser jantar veio a ser ceia, e que começando em convite da glória, acabou em convite do Sacramento. O que agora resta é que todos nos aproveitemos de um e outro, e que não sejamos tão ingratos a Deus, tão inimigos de nós mesmos, e tão faltos de entendimento e juízo, como os que uma e outra vez chamados não quiseram vir. A primeira razão que nos deve animar a todos, é saber que a todos nos chama e está chamando Deus, e que assim o banquete da glória como o do Sacramento, para todos os fez e tem aparelhado igualmente, sem reserva nem exceção de pessoas. Notou S. Pascásio que este mesmo rei da nossa parábola, quando se diz que fez as bodas a seu filho, chama-se rei homem: Homini regi; porém, depois que tratou do banquete, nunca mais se chamou homem, porque os reis homens convidam só aos príncipes e aos grandes; o rei Deus não é assim: a todos convida, a todos chama, todos quer que se assentem à sua mesa, ou seja no céu a da glória, ou na terra a do Sacramento.

Depois que os convidados descorteses ao primeiro e segundo recado não quiseram vir, mandou o mesmo rei buscar outros que substituíssem os seus lugares, e a instrução que deu aos criados, foi que saíssem às ruas, e que chamassem para o banquete todos quantos achassem: Ite ad exitus viarum, et quoscumque inveneritis, vocate ad nuptias[6]. Pois, para a mesa do rei, e em uma celebridade tão real como a das bodas do príncipe seu primogênito, não se limitam as qualidades? Não se assinalam os postos? Não se faz menção de títulos ou estados, nem se distingue quais hão de ser os chamados e quais os excluídos? Não. Chamai todos os que achardes pelas ruas, porque assim como as ruas são públicas e comuns a todos, assim quero que o seja a minha mesa: e assim foi. Diz o texto que os criados ajuntaram todos quantos acharam, maus e bons: Congregaverunt omnes quos invenerunt, malos et bonos (Ibid. 10). E destes achados e tirados das ruas, se encheram os lugares do banquete: Et impletae sunt nuptiae discumbentium. E que quer dizer bons e maus: malos et bonos? Quer dizer, como explica a glosa e os doutores: Cujuscumque conditionis homines, cujuscumque gradus, cujuscumque nationis: de qualquer nação, de qualquer condição, de qualquer estado, de qualquer ofício, de qualquer fortuna. O hebreu e o grego, o alto e o baixo, o grande e o pequeno, o rico e o pobre, o nobre e o plebeu, o senhor e o escravo, o branco e o preto, todos, sem diferença nem exclusão. E notai que antepõe o texto os maus aos bons: malos et bonos, isto é, os menos nobres aos mais honrados, porque esta é a maior honra e a maior magnificência da mesa de Deus. Assim o canta ao mesmo Deus no mesmo banquete quem melhor lhe conhece a condição, que é a sua Igreja: O res mirabilis, manducat Dominum pauper servus et humilis: Coisa admirável que coma à mesa do Senhor, e ao mesmo Senhor, o servo, o pobre, o humilde! — Mas se eu tivera licença para mudar um advérbio, e trocar a ordem a estes versos, não havia de dizer senão assim: Manducat Dominum pauper, servus et humilis? Haud res mirabilis! Que o servo, o pobre e o humilde se assente à mesa do Senhor? Não é isto maravilha! — Maravilha seria se o banquete fosse de algum rei da terra; mas, sendo do Rei do Céu, que criou a todos e morreu por todos, como havia de distinguir na mesa os que igualou na natureza, no preço e na graça? Cá fazemos estas distinções, e na outra vida veremos a vaidade delas. Que confusão será dos grandes ver que o céu é dos pequenos? E que confusão a dos que têm tantos escravos ver o seu escravo assentado ao banquete da glória, e que o senhor ficou de fora?

Suposto, pois, que um e outro banquete é para todos, e Deus nos chama a todos para ambos, não nos descuidemos agora de freqüentar o banquete da terra, para que o mesmo banquete da terra nos leve ao do céu. Alberto Magno, tão grande na sabedoria como na piedade, em um excelente livro que compôs do Santíssimo Sacramento, diz esta notável sentença: Id quod nunc in Sacramenti specie percipiendo Christum agimus, signum est, qualiter eumdem aliquando secundum dulcedinem suae deitatis in coelesti beatitudine percipiemus: Quereis saber se haveis de ir ao céu, e como lá haveis de ser recebido? Olhai se freqüentais cá o Santíssimo Sacramento, e como o recebeis, porque o modo com que nesta vida recebemos o corpo de Cristo no Sacramento, é sinal do modo com que na outra vida receberemos a divindade do mesmo Cristo na glória: Id quod nunc percipiendo Christum agimus, signum est, qualiter eumdem in beatitudine recipiemus. Que esperança pode ter logo de gozar o banquete da glória, ou quem despreza esta sagrada mesa, como os primeiros convidados desprezaram a outra, ou quem chega à mesma mesa com tão pouca disposição e pureza de consciência, como o que foi lançado dela e levado ao cárcere das trevas, que é o inferno? Quando o rei deu esta sentença, disse que naquele lugar escuro e subterrâneo haveria choro e ranger de dentes: Ibi erit fletus et stridor dentium (Ibid. 13). Onde se deve muito advertir que dois tormentos, de que só fez menção, um é da boca, outro dos olhos. No inferno há muitos outros tormentos, e mais terríveis, com que o fogo e os demônios atormentam os condenados. Por que fez logo menção somente destes dois, com que os mesmos condenados se atormentam a si mesmos, e um dos olhos, outro da boca? Porque como o comer a Deus tem por prêmio o ver a Deus, e a culpa de o comer indecentemente tem por castigo não o ver eternamente, a culpa de o comer indecentemente aquele miserável foi castigada na boca, e o castigo de o não ver eternamente foi executado nos olhos. Chorem eternamente os olhos, pois não hão de ver a Deus enquanto Deus for Deus: Ibi erit fletus. E pois a boca se atreveu a tocar e comer a Deus como não devera, morder-se também eternamente de raiva e desesperação com seus próprios dentes: Et stridor dentium.

Daqui inferiu Cristo, Senhor nosso, aquela tremenda conclusão: Multi enim sunt vocati, pauci vero electi (Mt. 22,14): porque muitos são os chamados e poucos os escolhidos. — Mas, se os escolhidos são os que entraram com vestidura nupcial e ficaram no banquete, e o não escolhido, que entrou indecentemente vestido, foi um só, como diz o Senhor e infere do sucesso desta mesma parábola que os chamados são muitos e os escolhidos poucos? Esta dúvida deu já muito em que entender aos intérpretes, mas tem fácil solução. Porque os chamados não foram só os que vieram ao banquete, senão também os que não quiseram vir. E como todos os que vieram e não vieram foram chamados, e ainda dos que vieram um não foi escolhido, bem se infere que os chamados são muitos e os escolhidos poucos. Poucos em respeito de todo o número dos chamados, e menos ainda em respeito do desejo que Cristo tem, e do preço que despendeu para que todos se salvem. Porém, o que sobretudo faz ao nosso intento, é que todos os chamados que vieram com vestidura nupcial ao banquete do Sacramento, todos foram escolhidos: pauci electi. Poucos sim, mas escolhidos todos. E por que razão? Porque o fim dos chamados é a glória, o pão dos escolhidos é o Sacramento, e todos os que usam bem do pão dos escolhidos conseguem o fim dos chamados. Não há fim sem meios, e todos os que se sabem aproveitar deste soberano meio, tão aparelhado e tão fácil, todos os que freqüentam, com a decência e disposição que convém, a mesa do Santíssimo Sacramento, todos os que comem e se sustentam do pão dos escolhidos, que é o banquete de Deus na terra, todos conseguem o fim dos chamados, que é o do céu.

VIII

Grande consolação por certo, cristãos, para todos os que assim o fazem, como igual desconsolação também, e afronta e vergonha grande para os que por interesses ou apetites tão vãos, como são todos os deste mundo, deixam o banquete divino do Sacramento, e perdem o da glória. Aqueles descorteses e mal-entendidos, que chamados ao banquete não quiseram vir, diz o texto que um se foi para a sua lavoura, outro para a sua negociação: Alius in villam suam, alius vero ad negotiationem suam (Ibid. 5). Vede o que perderam; e por quê? Que podia granjear um na sua negociação e outro na sua lavoura, que tivesse comparação com o que desprezaram: Illi autem neglexerunt (Ibid. 5)? Chama-nos Deus para o descanso e para estarmos assentados à sua mesa, e nós antes queremos trabalhar e suar com o mundo, que descansar e regalar com Deus. Tanto podem conosco as aparências do presente, e tão pouco a fé e esperança do futuro. De ninguém se podia recear menos esta desatenção, que dos mesmos a quem o rei mandou chamar. Mandou chamar lavradores, que são os que foram para a sua lavoura, e mercadores, que são os que foram para a sua negociação. E por que mais lavradores e mercadores que gente de outro trato ou de outros ofícios? Porque assim o lavrador como o mercador, são homens que têm por exercício e profissão acrescentar o cabedal. O lavrador semeia pouco para colher muito; o mercador compra por menos para vender por mais. E por isso mesmo assim aos lavradores como aos mercadores os devia trazer à mesa do rei o seu próprio interesse. Que melhor lavoura que semear na terra e colher no céu? E que maior mercancia que vender o tempo e comprar a eternidade? Oh! eternidade enjeitada! Oh! glória desprezada! Oh! céu nem querido nem crido!

Credes vós, que vos chamais cristãos, credes que há céu? Credes que há glória? Credes que há eternidade? Dizeis que sim, de que eu duvido. Mas, se é verdade que credes tudo isto que tenho dito, como o não quereis? Assim o diz o Evangelho, que não quiseram os que vós imitais: Et nolebant venire (Ibid. 3). Se tanto pode convosco a lisonja do presente, e tão pouco a fé do futuro, por que não considerais no presente esse mesmo presente onde há de vir a parar? Coisa muito digna de admiração é que dos primeiros e segundos chamados, todos se escusassem e nenhum quisesse vir, e que os últimos todos viessem e nenhum se escusasse. Os recados e os criados não eram do mesmo rei, e as bodas as mesmas? Que homens foram logo estes, de juízos e vontades tão diferentes, que nenhum repugnou, e todos quiseram vir? Olhai onde o rei os mandou buscar, e onde estavam quando vieram: Ite ad exitus viarum (Ibid. 9): Ide aos fins dos caminhos. Et quoscum que inveneritis, vocate: e todos os que ali achardes, chamai a esses. — Sabeis por que não acudimos ao chamado de Cristo? É porque não estamos nos fins dos caminhos. Os princípios dos caminhos, que cada um toma para a sua vida, e também os meios deles, são muito enganosos: os fins, e onde vão parar, esses são os que desenganam. Todas as cidades, e mais as cortes — como esta era — têm três estradas reais por onde vai o fio da gente, e onde concorrem todas: a das riquezas, a das honras, a dos deleites. Mas os que se põem com a consideração ou com os sucessos da mesma vida onde estas estradas vão parar: Ite ad exitus viarum, estes são os que Deus busca, e estes os que acha: Et quoscumque inveneritis, vocate.

Também houve outra razão que muito moveu e obrigou as vontades dos que vieram em último lugar. Quando foram chamados os primeiros uma e outra vez, ainda o rei se não tinha irado: Iratus est rex; ainda não tinha mostrado o rigor de sua justiça: Perdidit homicidas illos, et civitatem illorum succendit[7]. E por isso não aceitaram o convite, nem respeitaram o recado, nem temeram o rei. Porém os outros, que viram a benignidade do rei trocada em ira, os rebeldes feitos em quartos, e a cidade em cinzas, que viram arder sem exceção as casas humildes, os palácios soberbos e as torres mais altas, como lhes não haviam de alumiar os olhos aquelas labaredas, e como lhes não haviam de abrandar os corações, ainda que fossem de bronze, um tal incêndio? Alguns, abstraindo da história, e tomando em geral a culpa e o castigo, reconhecem neste fogo o do inferno, que é o último paradeiro dos que desprezam o céu. E será bem que os interesses de tão pouco momento, e os gostos tão leves e tão breves, com os desta vida, se vão lá pagar no inferno eternamente? Pois, isto é o que querem, sem querer, os que tanto caso fazem do presente, e tão pouco do futuro, e por lograr o engano do que é — ou não é — não reparam no que há de ser.

Disse o que querem sem querer, porque bem vejo que lá dentro nos vossos corações estais dizendo que, se agora não quereis, haveis de querer depois, e que se agora sois como os primeiros que não quiseram vir, depois sereis como os últimos que vieram. Este é o engano comum com que o demônio nos cega e nos vai entretendo, até que nos leva, já perdidos, à condenação. Pede-nos a vontade agora, e prometemo-la para depois. Deus nos livre de uma vontade habituada a não querer, porque nunca quer. Olhai o que diz o texto: Et nolebant venire: E eles não queriam vir. — Não diz: nolerunt, senão: nolebant: não diz que não quiseram, senão que não queriam. Se dissera não quiseram, significava um ato de vontade; mas dizendo não queriam, não significa ato, senão hábito; e vontade habituada a não querer, nunca quer. Por isso não quiseram a primeira vez que foram chamados, nem a segunda em que os tornaram a chamar, e se os chamassem a terceira, também não haviam de querer. Mas se o rei foi tão bom e tão benigno, que sem embargo de não quererem vir a primeira vez, os chamou a segunda, por que os não mandou também chamar terceira vez? Este é o mais tremendo ponto de toda esta matéria. Ninguém se pode converter a Deus sem Deus o chamar com a sua inspiração e o prevenir com o auxílio de sua graça. E Deus, ainda que nos chama uma e outra vez, se nós desprezamos a vocação, e não acudimos a esta, também ele subtrai as suas inspirações, e nos nega justamente os seus auxílios. E que será da miserável alma destituída dos auxílios de Deus. Ouvi a S. Gregório Papa: Nemo contemnat, nedum vocatus excuset, cum voluerit intrare non valeat: Ninguém despreze a vocação e inspiração divina, porque, se quando é chamado, não quer ir, depois, ainda que queira, não poderá.

E para que nos desenganemos, e conheçamos todos que podemos chegar a tal estado, em que totalmente não possamos, ainda que quiséssemos, confirmemos a verdade desta doutrina de São Gregório com a última cláusula do nosso Evangelho, que só nos resta por ponderar. Mandou o rei que o que tinha vindo ao banquete sem vestidura nupcial, atado de pés e mãos, fosse lançado no cárcere das trevas: Ligatis manibus et pedibus ejus, mittite eum in tenebras exteriores[8]. E diz o texto que ouvindo o miserável homem esta sentença, emudeceu, e não disse palavra: At ilIe obmutuit. Este emudecer é o que mais me assombra e atemoriza. Homem miserável, homem pusilânime, homem inimigo de ti mesmo e sem juízo, por que não apelas da sentença para o mesmo rei? Não vês que é tão demente e piedoso, que ainda ofendido te chama amigo: Amice, quomodo huc intrasti[9]. Não vês que o mesmo dia de tanta celebridade é muito aparelhado para o perdão? Se não tens com que escusar a tua culpa, por que a não confessas? Por que te não lanças aos pés do Pai, e lhe pedes misericórdia por amor do Filho, e pela mesma humanidade, com que se desposou? Nada disto fez o miserável, e nada disto podia fazer, ainda que quisesse, porque a mesma sentença em pena da sua culpa o inabilitou para tudo. Nem podia ver, porque estava condenado às trevas; nem se podia lançar aos pés do rei, porque tinha presos os seus; nem podia bater nos peitos, porque tinha atadas as mãos; nem podia confessar seu pecado e pedir perdão, porque tinha emudecida a língua. E isto é o que acontece a quem, assim como este entrou despido da graça de Deus, chegou a ser despedido dela. Os pés e mãos da alma, como diz Santo Agostinho, são o entendimento e vontade, de que se compõe o alvedrio, e este, em faltando a graça de Deus, fica tão atado e escurecido, que nem tem luz para ver, nem mãos para obrar, nem pés para se mover, nem língua para dizer: pequei. — Vede se pode haver mais infeliz e mais tremendo estado, mas justamente merecido. Oh! se Deus quisesse que ao menos nos fique muito impressa nas almas, por último documento, a culpa, por que este miserável homem perdeu o uso de todas as potências e movimentos, e até a mesma fala, com que se pudera remediar de tudo. E qual foi esta culpa? Não foi outra, senão entrar ao banquete sem vestidura nupcial, isto é, chegar à mesa do Santíssimo Sacramento não estando em graça. Por isso emudeceu de tal sorte, que não pôde confessar sua culpa, porque é justo juízo de Deus castigar nas confissões o que se peca nas comunhões. Já que a boca se atreveu a comungar em pecado, não tenha língua para confessar seus pecados: At ille obmutuit.

Emudeceu o homem por justo castigo: nós devemos emudecer de horror e assombro; o Evangelho emudeceu, porque não tem palavra que não esteja ponderada; e eu também emudeço, porque não tenho mais que dizer. Se a minha ignorância e tibieza vos não soube chamar para o banquete, como devia, espero que interiormente o tenha feito a graça e inspirações divinas com tal eficácia, que freqüentando nesta vida o do Santíssimo Sacramento, mereçamos na outra alcançar o da glória.

Notas[editar]

  1. Mandou os seus servos a chamar os convidados para as bodas (Mt. 22,3).
  2. Eis aqui tenho preparado meu banquete: vinde às bodas (Mt. 22,4).
  3. Mas os que estavam convidados não foram dignos (Mt. 22,8).
  4. Outros, porém, lançaram mão dos servos que ele enviara, e, depois de os haverem ultrajado, os mataram (Mt.22,6).
  5. Por força das palavras.
  6. Ide pois às saídas das ruas, e a quantos achardes, convidai-os para as bodas (Mt. 22,9).
  7. Acabou com aqueles homicidas, e pôs fogo à sua cidade (Mt. 22,7).
  8. Atai-o de pés e mãos, e lançai-o nas trevas exteriores (Mt. 22,13).
  9. Amigo, como entraste aqui? (Mt. 22,12)?