Sonhos D'ouro/Pós-escrito

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Sonhos D'ouro por José de Alencar
Pós-escrito

Há quinze dias teve Ricardo de assistir a uma vistoria, em questão de terras, para o lado de Jacarepaguá.

Na volta lembrou-se de visitar D. Joaquina, a quem não via desde muito. Achou a casinha e a dona no mesmo estado: velhas como as deixara, mas contentes e sossegadas.

A tia de Fábio recebeu o advogado com muita festa e agasalho; perguntou notícias do sobrinho e da nova sobrinha; e pediu a Ricardo que lhes mandasse muitas e muitas recomendações, quando escrevesse.

Eram duas horas. Já D. Joaquina tinha jantado; mas havia carne assada e improvisou-se uma fritada, que Ricardo aceitou de bom grado, para ter o prazer de passar com a velha o resto da tarde. O advogado comeu com apetite; e não trocaria o copo d'água cristalina, que bebeu depois do melado, pelo mais esquisito champanha.

— O senhor é que ainda não quis casar? disse D. Joaquina, preparando-lhe uma chávena de café.

— Creio que fiquei para tio, disse Ricardo sorrindo.

— Qual!... A dificuldade é encontrar aí algum peixãozinho que lhe ponha feitiço; como um que veio aqui outro dia.

— Não tenha receio, trago uma figa, duas figas, que me livram do quebranto, tornou Ricardo no mesmo tom.

— Deixe ver, disse a velha.

— Estão lá dentro, no coração.

A velha riu-se. E o advogado acendendo o charuto saiu a dar uma volta de passeio a pé, enquanto se ia buscar ao pasto o Galgo, que naturalmente andava também matando saudades, pois desde muito tempo residia na corte à Travessa do Espírito Santo n.º 19, cocheira do Viana.

Tomou Ricardo pelo mesmo caminho em que à primeira vez o encontramos, e não tinha dado vinte passos que as recordações de outros tempos surgiram para envolvê-lo como o aparato de uma cena armada de improviso.

Ouviu tropel de animal; reconheceu o Galgo; viu passar Fábio; trocou palavras com ele; perdeu-se entre os tufos do arvoredo; sentiu o sobressalto que tivera outrora, despertado por um riso argentino; e contemplou com entusiasmo de artista, e um enlevo que então não sentira, o gracioso vulto da gentil amazona.

Depois correram as vistas; novas cenas sucediam-se; e a imaginação as povoava de recordações vivazes, que entretanto pareciam extintas.

Este volver ao passado incomodava Ricardo, que pensou escapar-lhe fugindo àquele sítio.

Ao voltar uma curva descobriu duas senhoras, que se aproximavam lentamente pelo mesmo caminho; e qual não foi o seu espanto reconhecendo Guida acompanhada de Mrs. Trowshy.

Desde certo tempo a saúde de Guida se alterara. Não se queixava, nem tinha mesmo incômodo ou mal determinado. Perdera a alegre vivacidade; e sentia invadi-la um abatimento indefinível. Sua vida nos meses últimos não era mais do que um lento delíquio; parecia-lhe que estava desmaiada. As flores, se é que têm sensibilidade, devem experimentar uma impressão igual quando murcham.

Ultimamente o desfalecimento chegara a ponto de inquietar a família; os médicos receitaram as duas panaceias do costume, o casamento e o campo. Pobres dos médicos! Queixam-se deles. Ah! se tivessem na sua farmacopeia certas drogas preciosas, como o amor, a ambição, a glória, que de curas milagrosas não fariam!

Quando se tratou de escolher o arrabalde, Guida pediu a Tijuca; não que ela esperasse tirar proveito para a saúde. Bem longe disso; era um desejo recôndito de rever aqueles sítios, e saciar-se das reminiscências que eles guardavam. Matassem embora essas árvores, como a mancenilha; queria embriagar-se de seus perfumes.

Lembrava-se da Africana que vira representar ultimamente; e invejava aquela morte, ela que dois anos antes, naquelas mesmas montanhas, zombava de Safo, a mais ilustre entre as mártires do amor.

Guida trajava naquela tarde um vestido cinzento e, sobre ele, um casaco preto guarnecido de marta. A alvura imaculada de seu rosto destacava-se nesse trajo escuro, entre os negros cabelos, com uma lividez que assustava: parecia o perfil de uma estátua em alabastro.

Reconhecendo Ricardo, teve a moça uma violenta comoção, e tomou para suster-se o braço da mestra, que atribuiu o choque a susto e debilidade da moléstia.

— Não sabia que estava na Tijuca, disse Ricardo.

— Viemos há oito dias.

— Ela tem andado doente; o doutor mandou tomar ares, disse Mrs. Trowshy em português arrevesado.

— Há de fazer-lhe bem a Tijuca, tornou Ricardo.

— À saúde?... perguntou Guida.

E abanou a cabeça desfolhando um triste sorriso. Foi então que Ricardo reparou no estado de abatimento da moça. O talhe, tão esbelto e grácil, retraía-se como o cálix do lírio-do-vale quando fana-se, e os olhos de embaciados, só intercadentes, como o trepidor da estrela, rutilavam para desferir lampejo febril.

Não se concebe a comiseração que sentiu Ricardo notando aquele deperecimento lento de uma beleza, que ele vira tão esplêndida. Lágrimas umedeceram-lhe os olhos; e teve impulso de ajoelhar-se aos pés da mártir, sacrificada ao paganismo social.

Lembrou-se da conversa que tivera com a moça dois anos antes, pouco distante daquele sítio. Guida era uma das vítimas desse martirológio da família, que poucos sabem e ninguém compreende. Nascera rica; educaram-na para a opulência; e a grandeza a sufocava.

Havia um meio de salvar-se; era esfarfalhar sua alma pelas salas em afeições efêmeras; tornar-se a moça da moda, faceira, namorada, perseguida e disputada por um enxame de adoradores. A dignidade inata fechou-lhe essa válvula do coração.

Guida o guardara virgem e intacto para o seu primeiro amor; porém este não o encontrara no mundo. Por quê? Não havia um homem que a merecesse? Guida estimava o homem, mais do que ele valia, porém na pureza do ideal; por isso os indivíduos da espécie lhe pareciam escorços, senão caricaturas.

— Por que não sou eu o homem que ela sonha, disse Ricardo; por que não me deu o Criador um raio do fogo sagrado para reanimar esta vida que se extingue, para reter na terra esta bela mulher que se está transformando em anjo?

Guida sentara-se à beira do caminho, numa leiva coberta de relva, e acompanhava o recorte das nuvens com o olhar mórbido, que às vezes se eclipsava sob os longos cílios e volvia rápida e sutilmente ao rosto de Ricardo.

— Deve passear! disse Ricardo para romper o silêncio.

— Ela não gosta mais de sair como dantes, observou Mrs. Trowshy.

— Fatiga-me tanto! tornou Guida. Já três vezes viemos para este lado; e ainda não pude chegar até a outra volta.

— Quando estiver mais forte.

— Tenho tanta vontade! Mas hoje hei de ir; já descansei. Venha conosco! disse pousando o olhar súplice no semblante do moço.

Não era longe a volta a que a moça desejava chegar.

— Lembra-se? perguntou a Ricardo. Aqui nos encontramos pela primeira vez.

— Não esqueceu?

— E a nossa flor... Ainda estará no mesmo lugar?

Ricardo rompeu o arvoredo, e procurou:

— Aqui está ela!

Guida aproximou-se.

O arbusto, reverdecido com as águas do inverno, começava a florescência. Nas pontas dos renovos germinavam já os lindos cálices de nácar, com os pingos d'ouro.

Roçou Guida as mãos pelas folhas glabras do arbusto como para sentir-se acariciada pelo doce frolido:

— Sonhos d'ouro! murmurou.

— É verdade! exclamou Ricardo sorrindo.

— Nem se lembrava! disse Guida com leve exprobração.

— Não culpe a pobre florinha, se o vento da tempestade a mirrou e cobriu de pó, tornou Ricardo apanhando os secos despojos da passada floração.

— Estes morreram, murmurou Guida olhando as flores murchas, mas vão renascer. E os meus?...

A voz da moça expirou nos lábios, e exalou-se em um suspiro:

— Os meus nasceram aqui também, porém morreram para sempre!

Ergueu Ricardo surpreso os olhos, e viu o semblante da moça banhado em lágrimas.

— Guida! exclamou ele.

E cingiu-lhe a cintura com o braço para ampará-la, porque a via desfalecer.

— Eu queria morrer aqui! balbuciou ela descaindo-lhe a fronte ao ombro de Ricardo, e reclinando o talhe ao peito onde conchegou-se hirta, sem movimento.

Mudo e estático, Ricardo não sabia o que fizesse; não tinha forças para separar de si o corpo desfalecido, nem ousava observar-lhe o semblante, temendo ver nele a máscara da morte.

Foi rápido o lance, e durou enquanto Mrs. Trowshy, que duas vezes investira com o arvoredo, mas fora repelida por causa de sua rotundidade, fazia volta para aproximar-se.

— Guida! repetiu Ricardo aflito.

A moça ergueu a fronte e engolfando-se no olhar que banhou o rosto do mancebo, sorriu.

— Cuidei que morria... e era feliz!

Ricardo pousou um beijo casto na fronte da moça.

— Há de viver!

— Para quem?...

— Para mim!

— Por ele e para ele, meu Deus! disse ela ajoelhando com as mãos erguidas ao céu.

What!... gritou a mestra vendo Guida naquela posição.

Ergueu-se Guida com um sorriso:

— Estava agradecendo a Deus a bênção que me enviou.

E abraçando-a com efusão, cobriu-a de beijos.

Child! Dear child!... exclamava a inglesa esmagando as lágrimas nos olhos.



À última hora.

O casamento de Guida com Ricardo efetua-se qualquer destes dias.

O Bastos consolou-se com a sociedade que lhe deu o Soares em sua casa bancária.

O Benício anda em uma dobadoura: da modista para o Carceler, da florista para a cocheira. Ninguém lhe encomendou cousa alguma; mas ele se julgaria desonrado se não tomasse parte ativa no grande acontecimento.


                                                                             FIM DO FIM