Sonhos D'ouro/XXII

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Terça-feira seguinte, estava Ricardo como de costume em seu escritório.

Seriam dez horas passadas. Reinava na pequena sala, dividida a meio em dois cubículos por um tabique de pinho, um silêncio desanimador, sem dúvida propício à meditação, porém pouco prometedor a respeito de clientela.

Sentado à clássica mesa de vinhático, inteiramente limpa de autos, Ricardo, trabalhador infatigável, escrevia desde as nove horas da manhã em que habitualmente chegava ao escritório.

Lembrara-se de fazer algumas traduções para distrair as horas enfadonhas do estéril plantão, nutrindo a esperança de tirar daí alguns parcos recursos com que fosse atamancando as necessidades.

Ricardo bem sentia que não tinha real vocação para a profissão forense; a aridez desses estudos, que os rábulas costumam amenizar com desbragadas verrinas, não conformava por certo à sua inteligência brilhante, colorida por uma imaginação de artista.

Mas o mancebo, não obstante, aceitava essa carreira como um dever, pela impossibilidade de escolher outra que lhe proporcionasse os meios de subsistência e os recursos para manter a sua família, que se achava em circunstâncias precárias.

Um camarada de São Paulo se lhe oferecera para obter alguma colaboração em um dos jornais da corte. Mas até então nada conseguira; as pequenas empresas não podiam pagar; as grandes entendem que o verdadeiro redator de uma folha que se respeita, é o soberano público, à razão de tantos réis por linha.

O livro que Ricardo traduzia era de Balzac: Eugênia Grandet. Esperava achar um editor para a obra-prima do ilustre romancista francês; cousa bem duvidosa.

Às vezes deitava a pena sobre a bandeja do tinteiro, e derreando contra o recosto da cadeira, perdia-se em cogitações que o trabalho interrompera, e agora com a pausa voltavam a eito.

Conhecia-se-lhe pelo aspecto que tristes eram aquelas cismas; ressumbrava em seu olhar apagado o desalento que iam derramando-lhe nos seios d'alma.

A expressão habitual do mancebo era a sisudez afável, que nem se arruga na carranca, nem se descompõe no frouxo de riso. Nesse dia porém mostrava-se grave e preocupada sua fisionomia.

O dinheiro, esse azoto social, sem o qual não se vive nas cidades: eis a grande questão, que se debate nas ruas e praças, desde o mendigo até o rei, um esmolando os magros vinténs, o outro distribuindo os milhões nacionais.

Era essa também a preocupação de Ricardo naquele momento. As circunstâncias do mancebo de dia em dia se tornavam mais estreitas.

Morava ele com a mãe de Fábio, que o agasalhara como o futuro cunhado de seu filho; já essa posição de hóspede o constrangia, apesar dos contínuos protestos da boa senhora, a repetir todos os dias, que a despesa de casa não aumentara um real por sua causa, e que longe de incomodar-se, tinha ela ao contrário o maior prazer com tão agradável companhia.

Ainda quando assim fosse, e Ricardo procurava tornar-se o menos pesado, acanhava-o essa dependência de alheio favor, e repugnava-lhe viver a expensas de outrem, apesar da amizade de Fábio e dos laços que breve deviam ligar as duas famílias.

Mas o que exacerbara naquele dia estas nobres suscetibilidades de Ricardo, era a posição especial em que se achava com relação a Fábio, desde o último domingo.

Já anteriormente não gostara do desembaraço com que o noivo de sua irmã se portara em casa do Soares; disfarçara contudo, fazendo-lhe apenas ao de leve alguns reparos, a que o outro não deu importância.

Foi porém no dia do passeio à Vista Chinesa que Ricardo se recolheu contrariado ao último ponto, não só pela sem-cerimônia com que se intrometera o Fábio na roda dos convidados, filando o cavalo do Lima, como pelo namoro escandaloso que travara com D. Guilhermina.

Sentia Ricardo a necessidade de ter com o amigo uma prática séria, na esperança de coibir a tempo aqueles ímpetos e evitar futuros dissabores, senão verdadeiros desregramentos, que trariam a infelicidade de duas famílias.

Fábio porém evitava as ocasiões em que o assunto pudera muito naturalmente vir a talho, trazido pela divagação de uma palestra entre amigos. Um emprazamento emprestaria à conversa ares de solenidade que seriam de mau prenúncio. Podia o noivo de Luísa enxergar nas palavras do amigo uma exprobração de quem já se arrogava autoridade de chefe de família; e irritando-se, persistir no caminho que levava.

Razão tinha Ricardo para recear esse resultado; pois desde a primeira visita à casa do Soares sentia que o espírito de Fábio, arrastado pela sedução daquela sociedade, subtraía-se à sua influência.

O menor arrefecimento nas relações dos dois moços teria consequências graves, pois determinaria a retirada de Ricardo para São Paulo, desvanecendo a esperança por tanto tempo afagada de fazer carreira na corte, e preparando para Luísa uma decepção cruel.

Tais eram os pensamentos que nessa manhã carregavam a fronte do jovem advogado de uma nuvem de tristeza.

Eram dez horas e meia, e Fábio ainda não chegara ao escritório. A sua mesa, colocada do outro lado da sala, estava intacta como ele a deixara sábado. Nos dois cantos viam-se as rimas de autos velhos, que o moço pedira aos escrivães a pretexto de estudar certas questões; mas realmente para dar à sua banca o aspecto forense. Esses cartapácios faziam as vezes de uma tabuleta.

— É capaz de não vir hoje, como já não veio ontem, disse consigo Ricardo.

E ia voltar à tradução, quando ouviu passos na escada; momentos depois na porta de comunicação entre os dois repartimentos surdiu a figurinha encarquilhada do Visconde da Aljuba:

— Pode-se entrar?

— Oh! sr. visconde!... Faça favor.

Ricardo, surpreso da visita, ergueu-se para oferecer ao Aljuba uma cadeira a seu lado.

— Custou-me a dar com o escritório. Também foi procurar uma rua tão esquisita. Nada; isto não serve. É preciso arranjarmos quanto antes uma sala aí na Rua Direita, ou mesmo na da Quitanda...

— Ainda não é para mim; e quem sabe se o será algum dia.

— Ora qual! disse o visconde com seu riso fagoteado e batendo no ombro do moço. Você breve está aí recheado! Veja o que lhe digo.

Uma das particularidades do visconde era familiarizar-se com as pessoas que tratava a ponto de chamá-las por você desde o primeiro dia. Entendia que o dinheiro lhe dava essa liberdade, como lhe dera a excelência com que o abarrotavam a cada canto.

Ricardo não gostou do modo achavascado; mas disfarçou.

— Dito por V. Ex.a, é um bom agouro.

— Oh! Eu cá nunca me engano. Sujeito que tem de ser apatacado, eu o descubro logo pela pinta. Olhe o Soares. Foi vê-lo, e conhecer logo que aquele patife acabava podre de rico.

— Então acha-me com jeito de homem apatacado?

— Tem todos os sinais.

— Quais são eles?

— Eu cá sei. Mas vamos ao que serve. Para começar, temos aqui uns dois negocinhos... Meu procurador há de passar por cá depois. Trouxe os papéis para explicar-lhe bem a cousa.

Tirou o visconde do bolso um maço de papéis preso por um elástico, e pô-lo na ponta da mesa.

— Este é uma escritura de hipoteca dum sujeito que me deve seis contos. A casa há de valer uns vinte; ainda tem uns escravinhos; bem tangida a embromia, como os senhores sabem fazer, podemos passar a mão em tudo.

— Engana-se; eu não sei fazer desses milagres, disse Ricardo, já não podendo conter o sarcasmo.

— Ande lá, ande lá! Isto agora é uma letrinha dum rapaz, um peralta que já esbanjou a legítima do pai, e está à espera da herança da mãe. É preciso pôr-lhe em cima o ano do nascimento e andar com a tramoia depressa para arranjar uma sentençazinha, que fique na gaveta bem guardada à espera do bolo. Enquanto o marreco anda na pinga, não olha para estas cousas, nem dá o cavaco, sobretudo caindo eu com uns cobres, que ele anda seco. Mas assim que meter-se na herança, é capaz de vir com histórias de que são falsas as letras, que ele as aceitou quando já estava declarado pródigo, e outras petas.

— Desculpe-me, sr. visconde, não posso encarregar-me destes negócios, disse Ricardo com fria gravidade, carregando sobre a última palavra.

— Por que então?

— Permita-me que reserve para mim os motivos de meu procedimento, tornou Ricardo no mesmo tom.

— Ora já sei! É sobre isso mesmo que eu vinha falar-lhe; mas precisava antes de apalpar o terreno... Compreende, hem!

Foi Ricardo quem dessa vez ficou surpreso do desembaraço do usurário.

— A cousa está bem encaminhada! Você é um finório! continuou o visconde apertando o joelho de Ricardo. Mas, olho vivo, que anda uma súcia de galfarros à cola da rapariga. Então o Nogueira e o Bastos? Dois velhacos de marca. Deixe-os por minha conta, que os conheço; têm de haver-se com um macaco velho. Lá o Guimarães não mete medo, é um pateta.

— Explique-se melhor, sr. visconde, eu não o entendo.

— Faça-se de inocente! Ah! maganão?! Quem não sabe que a rapariga está pelo beiço! Você é um ladrão feliz!

— De que rapariga me fala o senhor?

— Ora de quem há de ser senão da Guida, a filha do tratante do Soares? Domingo na Tijuca, todos conheceram como ela se derretia... E tinha razão! Olé se tinha.

— Não admito gracejos a este respeito, sr. visconde.

— E esta! Não costumo gracejar com os negócios.

— Então é um negócio que o senhor veio propor-me?...

— E que negócio!... Magnífico!... Olhe; um namoro com uma rapariga como a Guida, custa caro! Eu conheço aquela sujeitinha! Está acostumada a atirar fora as notas do banco como se fossem papéis de bala! Além disso há de ser preciso sustentar por muito tempo, um ano seguramente, a tramoia, o que fica um tanto salgadete.

O visconde hesitou um momento, calculando uma última vez as probabilidades da especulação. Ricardo, mantendo com esforço a calma de um frio desprezo, desviava com desgosto o olhar da fisionomia grosseira e astuta do usurário:

— Pois, meu amigo, eu forneço todo o dinheiro necessário para o nosso negocinho... Já sabe, com a condição de tirar a minha fatia do bolo. Que diz? Vamos ao ajuste; sempre é bom.

— Creio que terminou a sua proposta? perguntou Ricardo com a voz contida. Cabe-me agora responder.

— Sem dúvida.

— Não tenho pretensões à filha do Sr. Soares; nem existe entre nós mais do que relações do acaso, que vão como vêm. Enganou-se, pois, sr. visconde; não é a mim que devia dirigir-se, para a sua especulação.

Deu o Aljuba um saltinho na cadeira.

— Hã! Não quer? Percebo a embromia. Fia-se na rapariga? Olhe lá, não se arrependa...

— Queria poupar-me à necessidade de dar-lhe a resposta que merecia sua proposição; mas o senhor força-me...

— Isso de mulher, não há que fiar, insistiu o visconde receoso de que lhe escapasse a pechincha. Então aquela que é o diabo de saia, ou o pai, o Soares, que tudo é um. Aposto que já o engazopou...

Ergueu-se Ricardo afinal ao impulso da indignação que por muito tempo recalcara; abotoou o visconde pela gola do casaco, e arrastou-o até a porta da rua.

Executada esta expulsão em silêncio, apenas interrompido por algumas interjeições do visconde, Ricardo, vendo que lhe ficara sobre a mesa o chapéu do miserável, atirou-lho do alto da escada.

Só então reparou ele na presença de Fábio, que se ocultara na janela para deixá-lo passar com o visconde a reboque.

— Ouviste?

— Tudo! O sujeito esteve impagável!

— E sabes quem é o culpado do que acontece?

— Sou eu, se te parece!... Ora, pois, arranja-me daí já um processo. Servirá para praticares no crime. Código, artigo 264. Mete-me nessa tarrafa policial! Anda; um estelionato, de cumplicidade com o visconde!

— Não estou de veia para gracejos. Conversemos seriamente, Fábio. Desde ontem que desejo esta ocasião.

— És difícil de contentar. Queres cousa ainda mais grave do que o Código Criminal e um bom processo de estelionato?

Sem atender às facécias do amigo, Ricardo continuou:

— São estas as consequências do passo errado que me obrigaste a dar, indo à casa do Soares.

— Com esta lógica sou capaz de te provar que, se não viesses de São Paulo, não estarias aqui; e portanto o visconde não te pilhava.

— Se todo o mal recaísse unicamente sobre mim!... Porém a minha pobre irmã Luísa também tem o seu quinhão. Mal sabe ela que as suas meigas saudades andam aqui desfolhadas ao vento do prazer, e quem sabe se já não calcadas aos pés de alguma falsa deidade!

— Meu caro Ricardo, estás hoje tétrico, como o Saião Lobato na Câmara. Aparece-te de repente o Vasques, disfarçado em visconde, para representar uma cena cômica, e tu em vez de dares boas gargalhadas e te divertires à custa do velho ginja, tomas o caso ao sério, e cais no dramático! Até aí, enfim passe. Na cena da “ejaculação” tocaste o sublime. Far-me-ias lembrar o Rossi, se eu o tivesse ouvido. Mas depois de te haveres levantado a essas alturas épicas, desceres assim ao sentimentalismo corriqueiro de um poeta de sala, eis o que eu na minha qualidade de crítico, de amigo, e de futuro irmão, não posso tolerar.

— Queres fazer o favor de me ouvir? disse Ricardo, atalhando aquela volubilidade jovial, que em outra ocasião o faria rir de boa vontade.

— Espera; deixa acabar. O patife do visconde é um refinado tratante, um velhaco de tal quilate, que logo ao nascer logrou a natureza fazendo-se homem em vez da ratazana, para que ela o destinara. Mas para ter boas ideias, não há como essa gente. Aproveita a que ele te deu, que é excelente; e logra-o...

— Fábio! exclamou Ricardo com severidade.

— Que maior prazer pode ter um homem honesto do que o de “flambar” um velhaco?... Pensa nisso, que aproveitas mais o tempo do que lendo o farelório do Lobão. Até logo!

Ditas estas palavras, o peralta do rapaz ganhou a porta da escada, e desapareceu.